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No fim das contas, sempre sobra pro Diabo, até quando ele é inocente

Há um hábito curioso, e cada vez mais frequente, em parte do meio evangélico: quando alguém erra, a culpa quase nunca é da pessoa. É do inimigo. É do diabo. É uma batalha espiritual. É uma tentativa de destruir uma família.

Foi exatamente esse caminho escolhido pela deputada federal Alessandra Haber ao se manifestar sobre a crise envolvendo seu marido, o pré-candidato ao Governo do Pará, Daniel Santos. Sem mencionar diretamente o vídeo que circula nas redes sociais, cuja autenticidade não foi confirmada, ela preferiu afirmar que “o inimigo quer derrubar a nossa casa, mas ela permanece firmada na rocha que é Cristo Jesus”.

A frase emociona quem compartilha da mesma fé. O problema é quando ela acaba transformando uma possível responsabilidade humana em uma ofensiva sobrenatural.

Na tradição cristã, o diabo é descrito como tentador, acusador e enganador. Mas a decisão de ceder ou não à tentação sempre pertence ao ser humano. Foi assim com Adão e Eva. Foi assim com Davi. Foi assim com Pedro. A Bíblia nunca ensina que Satanás obriga alguém a pecar. A responsabilidade pelos próprios atos continua sendo individual.

Quando toda crise é colocada na conta do “inimigo”, cria-se uma perigosa inversão. O erro deixa de ser consequência das escolhas de uma pessoa e passa a ser tratado apenas como perseguição espiritual. O arrependimento perde espaço para a vitimização.

Isso não significa ignorar que pessoas públicas possam ser alvo de ataques políticos ou até de crimes, caso um material tenha sido obtido de forma ilegal. Essas situações precisam ser investigadas e tratadas pela Justiça. Mas uma coisa não elimina a outra. Se houve um erro pessoal, ele continua sendo pessoal. Se houve crime na divulgação, isso também deve ser apurado.

Misturar essas duas discussões e resumir tudo à ação do diabo pode até funcionar como discurso para parte do eleitorado religioso, mas não contribui para a reflexão sobre responsabilidade, ética e coerência.

No fim das contas, o diabo acaba recebendo uma fama que nem sempre merece. Porque, segundo a própria fé cristã, ele pode até tentar. Mas quem escolhe é o ser humano.

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