Lagostim-vermelho é registrado pela primeira vez no bioma Amazônia após ser encontrado em praia de Belém
Duas fêmeas da espécie invasora foram encontradas na praia do Cruzeiro, em Icoaraci, e achado publicado em estudo científico acende alerta para possíveis impactos nos ecossistemas aquáticos
Duas fêmeas adultas de lagostim-vermelho (Procambarus clarkii) encontradas na praia do Cruzeiro, no distrito de Icoaraci, em Belém, resultaram no primeiro registro oficial da espécie invasora no bioma Amazônia. O achado foi descrito em um estudo publicado na revista científica Nauplius e levou pesquisadores a recomendar o reforço do monitoramento dos ambientes aquáticos da região.
Os exemplares foram encontrados às margens do rio Maguari, que deságua na baía do Guajará e integra o sistema estuarino do rio Pará. As fêmeas apresentavam entre 12,6 e 13,4 centímetros de comprimento, indicando que se tratava de animais adultos e desenvolvidos, e não de formas jovens.
O Procambarus clarkii é originário da América do Norte e possui histórico de introdução em diferentes regiões do mundo. A espécie apresenta capacidade de adaptação a diferentes ambientes aquáticos e é considerada invasora em diversos locais onde foi introduzida.
Uma das preocupações relacionadas à presença do animal em Belém está na possibilidade de competição com espécies nativas. O lagostim-vermelho possui hábitos onívoros e pode disputar alimento e outros recursos com crustáceos e peixes presentes nos ambientes onde se estabelece.
A espécie também pode provocar alterações físicas nos ambientes aquáticos. Os animais escavam tocas nas margens e no entorno de corpos d’água, comportamento que pode modificar o solo e interferir na dinâmica de sedimentos.
Outro ponto de atenção é o potencial risco sanitário associado ao lagostim. O Procambarus clarkii é conhecido como vetor do fungo Aphanomyces astaci, agente causador da chamada peste do lagostim, doença que pode ser altamente letal para determinadas espécies de crustáceos.
Os exemplares encontrados em Belém, no entanto, não apresentaram evidências de contaminação pelo patógeno. A presença da espécie na região ainda assim é considerada um fator que justifica o monitoramento, principalmente diante dos possíveis impactos caso uma população consiga se estabelecer.
A origem dos animais encontrados ainda não foi determinada. Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que a introdução possa estar relacionada ao comércio ilegal ou informal de animais para aquarismo, com possibilidade de descarte inadvertido de exemplares não nativos em ambientes naturais.
Apesar do primeiro registro e do potencial invasor da espécie, os pesquisadores ressaltam que a descoberta de dois indivíduos não significa que o lagostim-vermelho já tenha formado uma população estabelecida na Amazônia.
Na avaliação de espécies invasoras, a identificação de indivíduos em uma fase inicial é considerada importante para que sejam realizadas ações de investigação, monitoramento e eventual contenção. Por isso, a recomendação é ampliar as amostragens em rios e outros ambientes aquáticos da Região Metropolitana de Belém.
Também é apontada a necessidade de reforçar a fiscalização relacionada ao comércio de animais aquáticos e ampliar a conscientização de aquaristas sobre os riscos de liberar espécies não nativas na natureza.
O registro em Belém acrescenta uma nova espécie à lista de organismos não nativos identificados no bioma Amazônia e coloca os pesquisadores em alerta para a necessidade de verificar se os dois exemplares encontrados representam uma ocorrência isolada ou se existem outros indivíduos na região.



