Belém está diante de um problema que se tornou tão frequente nas ruas que corre o risco de ser naturalizado: os acidentes envolvendo motocicletas. Todos os dias, motociclistas se envolvem em colisões, quedas e outros tipos de ocorrências que muitas vezes terminam em atendimentos médicos, afastamentos do trabalho e, nos casos mais graves, em mortes. O que parece ser apenas uma questão de trânsito, entretanto, tem consequências muito maiores para o funcionamento da cidade.
É preciso começar a tratar esse fenômeno como uma questão de saúde pública.
A motocicleta se tornou um importante instrumento de mobilidade e de trabalho. Está presente na rotina de entregadores, trabalhadores autônomos, funcionários de empresas e pessoas que utilizam o veículo justamente porque ele é uma alternativa mais barata e ágil diante das dificuldades de deslocamento de uma cidade como Belém. Por isso, quando ocorre um acidente, não é apenas uma motocicleta que deixa de circular.
É uma pessoa que pode ficar dias, semanas ou meses afastada de suas atividades.
Muitos dos envolvidos nesses acidentes estão em idade economicamente ativa. São trabalhadores que deixam de produzir, estudantes que interrompem suas rotinas, profissionais que precisam se afastar de suas funções e famílias que passam a enfrentar despesas inesperadas. Em acidentes mais graves, as consequências podem ser permanentes.
Existe, portanto, um custo econômico que não aparece imediatamente na conta do acidente.
O sistema público de saúde precisa atender essas vítimas. Hospitais e unidades de emergência destinam profissionais, equipamentos, medicamentos e leitos para tratar pessoas feridas no trânsito. Depois do atendimento inicial, podem surgir necessidades de cirurgias, fisioterapia, acompanhamento médico e reabilitação. Quando há incapacidade temporária ou permanente, o impacto se prolonga para além do hospital.
É uma conta que acaba sendo dividida por toda a sociedade.
Também existe o custo para as empresas. Um trabalhador afastado precisa ser substituído ou ter sua função redistribuída. Pequenos negócios, que muitas vezes dependem diretamente do trabalho de seus proprietários, podem simplesmente perder capacidade de funcionamento quando o responsável sofre um acidente. No caso dos trabalhadores autônomos, o problema é ainda mais evidente: sem poder trabalhar, deixam de ter renda justamente no momento em que podem precisar gastar mais.
Por isso, discutir acidentes de motocicleta é também discutir produtividade, renda e desenvolvimento urbano.
Há ainda uma dimensão humana que nenhuma estatística consegue traduzir completamente. Uma pessoa que sofre um acidente grave pode passar de alguém plenamente ativo para alguém que precisa de ajuda para realizar atividades cotidianas. Famílias inteiras podem precisar reorganizar suas rotinas para acompanhar tratamentos e processos de recuperação.
É diante desse cenário que a fiscalização precisa ser discutida sem receio de ser impopular.
Fiscalizar motociclistas não significa criminalizar quem utiliza uma moto para trabalhar ou se deslocar. Significa fazer cumprir regras que existem justamente para reduzir o risco de que uma viagem cotidiana termine em uma emergência hospitalar.
Capacete, velocidade compatível, respeito à sinalização, condições do veículo, circulação adequada e respeito aos demais usuários da via não são detalhes burocráticos. São elementos básicos de segurança. E quando as regras deixam de ser fiscalizadas, a percepção de que determinadas infrações são toleradas tende a crescer.
É claro que fiscalização, sozinha, não resolve o problema.
Belém também precisa discutir a qualidade de suas vias, sinalização, iluminação, organização do tráfego, transporte público e desenho urbano. Precisa investir em educação para o trânsito e em campanhas que realmente alcancem quem está diariamente nas ruas. Também é necessário compreender quais são os locais e comportamentos que concentram maior número de ocorrências para que as intervenções sejam direcionadas.
Mas existe um ponto que não pode ser ignorado: uma cidade não pode aceitar como normal que trabalhadores sejam frequentemente retirados de suas atividades por acidentes que poderiam ser evitados.
A discussão sobre motocicletas também precisa escapar da falsa escolha entre proibir ou liberar. A moto continuará fazendo parte da mobilidade de Belém. O desafio é fazer com que ela esteja inserida em um sistema viário mais seguro, no qual motociclistas, motoristas, ciclistas e pedestres consigam compartilhar as ruas com menos riscos.
Isso exige responsabilidade de todos. O motociclista precisa cumprir as regras. O motorista precisa respeitar quem está sobre duas rodas. O pedestre também precisa utilizar corretamente os espaços destinados à circulação. E o poder público precisa fiscalizar, organizar e corrigir os pontos em que a própria infraestrutura contribui para o risco.
Pode ser impopular defender mais fiscalização. Pode gerar reclamações, abordagens e discussões nas ruas. Mas a ausência de fiscalização também produz um resultado, só que muito mais caro e doloroso.
Quando um trabalhador sofre um acidente grave, a cidade perde mais do que uma pessoa temporariamente fora de circulação. Perde produtividade, renda, capacidade de consumo e, em muitos casos, passa a sustentar um processo longo de recuperação. O sistema de saúde é pressionado, a família é afetada e o poder público assume parte da conta.
Belém precisa parar de enxergar os acidentes de moto apenas como acontecimentos isolados.
Quando eles se repetem em escala suficiente para ocupar constantemente as emergências, afastar trabalhadores e produzir custos sociais recorrentes, deixam de ser uma coleção de fatalidades individuais e passam a representar um problema coletivo.
E problemas coletivos exigem políticas públicas.
Fiscalizar mais, melhorar as vias, educar para o trânsito e responsabilizar quem insiste em colocar a própria vida e a de terceiros em risco não é perseguir motociclistas. É reconhecer que a mobilidade precisa servir às pessoas, e não transformar a cidade em um espaço onde acidentes graves sejam encarados como parte inevitável da rotina.



