Uma coleção de calçados inspirada na cultura marajoara vai levar elementos do patrimônio cultural da Ilha do Marajó para um dos principais eventos internacionais de moda. As peças, produzidas com a participação de artesãos de Cachoeira do Arari, no Pará, serão apresentadas no Consulado Geral do Brasil na Itália, em 23 de setembro, durante a Semana de Moda de Milão.
A coleção utiliza grafismos marajoaras, padrões geométricos associados à produção cultural indígena pré-colonial da região. O projeto busca aproximar tradição, design, empreendedorismo e impacto social, valorizando conhecimentos transmitidos entre gerações e criando novas possibilidades de inserção para artesãos amazônicos.
A iniciativa é resultado de uma parceria entre o G10 Favelas, o Instituto Costurando Sonhos, o Instituto Tucunaré e a Dotz, marca brasileira de calçados sustentáveis.
Parte da coleção também será apresentada anteriormente em São Paulo, no Hotel Rosewood, em 14 de setembro.
Grafismos marajoaras chegam à moda internacional
A coleção reúne o trabalho artesanal realizado no Marajó com a produção industrial de calçados. O processo começa com a criação dos desenhos inspirados nos grafismos marajoaras. Depois, os padrões são reproduzidos por meio de bordados feitos artesanalmente.
Após a etapa de personalização, os calçados seguem para fábricas localizadas nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul.
A proposta é preservar a identidade dos grafismos ao mesmo tempo em que eles são incorporados a produtos contemporâneos destinados ao mercado de moda.
Para Gilson Rodrigues, fundador do G10 Favelas, a apresentação internacional também representa uma oportunidade de ampliar os espaços ocupados por produtores e empreendedores de diferentes regiões do Brasil.
“Alta costura não depende do CEP”, afirma Rodrigues, ao destacar a intenção de levar a produção para além dos centros tradicionais da moda.
O projeto pretende mostrar que conhecimentos e técnicas desenvolvidos em comunidades e territórios tradicionais também podem chegar a espaços de destaque internacional.
Projeto homenageia padre Giovanni Gallo
A coleção também estabelece uma relação com o trabalho do padre italiano Giovanni Gallo, que dedicou parte de sua trajetória à preservação da cultura e dos objetos produzidos por povos da Amazônia.
Gallo chegou ao Marajó e passou a catalogar e estudar peças arqueológicas encontradas na região, especialmente aquelas relacionadas à cerâmica marajoara.
Seu trabalho contribuiu para a criação, em 1972, do Museu do Marajó, localizado em Cachoeira do Arari. A instituição reúne objetos e registros relacionados à história e à cultura da região.
O padre também publicou, em 1996, o livro Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara, que se tornou uma das referências utilizadas para o desenvolvimento dos desenhos empregados no projeto.
A ligação com a Itália é considerada um dos elementos simbólicos da iniciativa, já que Gallo era italiano e teve papel importante na preservação e divulgação do patrimônio cultural do Marajó.
Artesãos participam da produção das peças
Um dos profissionais envolvidos na confecção dos calçados é Miqueias Caldas da Silva, de 35 anos, artesão e produtor cultural de Cachoeira do Arari que integra o Instituto Tucunaré.
O contato com os grafismos marajoaras faz parte da trajetória de Silva desde a infância. No entanto, segundo ele, o aprendizado específico para reproduzir os desenhos por meio do bordado veio posteriormente, durante uma oficina realizada no Senai.
Em 2023, o artesão participou de outra capacitação, dessa vez voltada à produção de carimbos de EVA, na Associação do Museu do Marajó.
A técnica ensinada durante a oficina permitia transformar os desenhos dos grafismos em moldes que poderiam ser aplicados em diferentes superfícies, como tecidos e madeira.
O trabalho utilizou como uma das referências justamente os registros reunidos pelo padre Giovanni Gallo.
“A professora teve a ideia de reproduzir o grafismo marajoara em um desenho, colá-lo no EVA e, depois, recortar o material para transformá-lo em um carimbo.”
A partir da experiência adquirida, Silva passou também a ensinar os conhecimentos no Instituto Tucunaré.
Vinte calçados serão apresentados em Milão
Para preparar a coleção que será levada à Itália, Miqueias participou da pintura de 20 calçados. O trabalho levou aproximadamente três semanas para ser concluído.
A produção reúne profissionais responsáveis por diferentes etapas do processo, desde a criação e aplicação dos grafismos até o bordado artesanal.
Segundo Suéli Feio, fundadora do Instituto Costurando Sonhos, há artesãos especializados em bordado e outros que trabalham com estamparia. A proposta do projeto é justamente transformar esses conhecimentos em uma oportunidade de valorização profissional.
“Eles mantêm essa cultura, mas, na maioria das vezes, ela é muito desvalorizada.”
A participação dos artesãos marajoaras busca demonstrar que técnicas tradicionais podem ser incorporadas a novos produtos sem perder a relação com o território e com a identidade cultural de origem.
Conhecimento é transmitido para jovens do Marajó
Além da produção das peças, o projeto também está relacionado à formação de novos artesãos em Cachoeira do Arari.
Depois de participar das capacitações, Miqueias passou a ministrar aulas no Instituto Tucunaré, compartilhando com crianças e jovens conhecimentos relacionados aos grafismos e às técnicas aprendidas.
A intenção é estimular a continuidade dos saberes tradicionais e, ao mesmo tempo, oferecer aos jovens possibilidades de formação profissional.
“A ideia era ensinar essas crianças para que, quando se tornassem adultas, já tivessem uma profissão e essa noção de conhecimento e pertencimento cultural.”
Para o artesão, o ensino da cultura local pode contribuir para ampliar perspectivas entre jovens em situação de vulnerabilidade.
A coleção que chegará a Milão, portanto, representa não apenas a presença de elementos marajoaras no circuito internacional da moda, mas também uma tentativa de transformar conhecimentos tradicionais em oportunidades de trabalho, formação e valorização cultural para comunidades da região.



