CRIMENOTÍCIAS

Importunação sexual nos estádios provoca reação de vítimas

Relatos de mulheres constrangidas nas arquibancadas durante partidas de futebol são comuns. No último sábado, no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, duas mulheres fizeram boletim de ocorrência em episódio de constrangimento sexual durante a partida entre Atlético Mineiro e Juventude. Uma delas, funcionária do Mineirão, relatou que foi agarrada por um torcedor. Em outro episódio, uma jovem denunciou ter sido tocada nas partes íntimas.

De acordo com o portal ‘GQ’, a Polícia Civil solicitou imagens de câmeras do estádio para identificar os autores que podem ser enquadrados em crime de importunação sexual (Lei 13.718 de 2018, com pena que pode chegar a até cinco anos de prisão).

A palmeirense Gabriela Schmidt Lira, de 33 anos, já perdeu as contas de quantas vezes foi constrangida por homens no estádio ou a caminho dele, já que mora perto do Allianz Parque, casa do time de coração, na capital paulista.

“O estádio é um lugar machista. No meio de tanta gente, aproveitam para apalpar, apertar, pegar, muitas vezes nem sabemos de onde vem a mão”, lamenta Gabriela. Um episódio, no entanto, ficou marcado na sua memória por tamanha ousadia e objetificação da mulher.
“Fui ao estádio sozinha, caminhando, estava vestindo calça jeans e camiseta do Palmeiras. Chegando na minha cadeira numerada, me deparei com um homem sentado no meu lugar, acompanhado de outros quatro rapazes. Pedi licença, expliquei que era meu lugar. Começaram a rir. Um deles perguntou por qual motivo uma mulher estava no estádio. Não respondi, ignorei”, lembra.

Apesar do constrangimento, Gabriela continuou pedindo para que liberassem a cadeira e que ela pudesse assistir ao jogo em paz. “Eles continuaram rindo, bebendo e ocupando meu lugar. Questionaram onde estava o meu homem, e provocaram para que eu o chamasse para tirá-los dali.”

Gabriela seguiu calma e segura do que estava fazendo, mesmo sendo humilhada por xingamentos misóginos e outras palavras de baixo calão. Mas, quando ela se virou para procurar algum segurança, sentiu que um dos homens a apalpou em partes íntimas.

“Ele ainda me chamou de gostosa. Começou a falar que mulher sozinha em estádio está procurando macho”, relembra. “Fui assediada e não acreditava que aquilo estava acontecendo, na frente de várias pessoas e ninguém fazia nada, absolutamente nada!”
Quando percebeu que tinha sido importunada sexualmente, Gabriela gritou, acusou seus agressores de assédio, falando palavras como “abusador”. Logo vieram alguns seguranças e retiraram os assediadores do local.
“Eu amo futebol, mas, às vezes, me privo do estádio em razão disso. São situações constrangedoras”, confessa Gabriela, que não está sozinha nesse sentimento.

Ciente de que o assédio é um fator desestimulante da ida de mulheres aos estádios, a Polícia Civil do Pará lançou a campanha “Importunação sexual é crime! Não faça parte desse time”, na semana passada, no Estádio Evandro Almeida (Baenão), em Belém.

O lançamento da campanha ocorreu durante uma partida do jogo entre Remo e Galvez pela Copa Verde, e a ação foi estendida até o final do campeonato e também para as séries B e C do Brasileirão, em parceria com a Polícia Militar e os clubes do Remo e Paysandu.
Em comunicado no site da Polícia Civil paraense, a delegada-geral adjunta, Daniela Santos, defendeu a necessidade de combater o crime de importunação sexual que ainda impede as torcedoras de ocupar espaços de lazer.

“Não são mais aceitas justificativas, independente se o ambiente for público ou privado, e menos ainda para locais onde homens se sentem autorizados a praticar crimes contra a mulher diminuindo ou objetificando o gênero feminino. É importante ressaltarmos que o corpo feminino não é espaço público e deve ser protegido, inclusive, pelo Estado”, afirmou a delegada Daniela.

Segundo o comunicado, as ações serão realizadas de maneira preventiva contra a cultura do machismo nos estádios, com a presença de equipes especializadas e a distribuição de panfletos informativos sobre o crime de importunação sexual.

Durante as partidas de futebol, também haverá uma equipe treinada para atuar repressivamente em situações de flagrante, para que no local as vítimas sejam atendidas.

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