Jornal inglês detona São Paulo após maior reservatório urbano virar “esgotão” a céu aberto
Reportagem do The Guardian descreve mau cheiro, esgoto, desmatamento, ocupações ilegais e até atuação do crime organizado em área vital para o abastecimento da maior cidade da América Latina
Enquanto São Paulo ostenta o título de maior centro financeiro da América Latina e concentra algumas das áreas mais ricas do continente, uma reportagem publicada pelo jornal britânico The Guardian expôs uma realidade bem diferente nos limites da metrópole: um dos principais reservatórios da cidade sofre com esgoto, poluição, desmatamento e ocupações irregulares.
A publicação mergulhou na situação da Represa Billings, considerada o maior reservatório urbano do Brasil em área e volume. Responsável por abastecer milhões de pessoas, gerar energia elétrica, ajudar no controle de enchentes e amenizar os efeitos das ondas de calor, a represa se transformou, segundo urbanistas e ambientalistas ouvidos pelo jornal, em um símbolo de décadas de descaso ambiental.
Durante uma expedição pelo reservatório, a bióloga Marta Marcondes coletou amostras de água em um dos trechos mais degradados da Billings. O relato descrito pelo jornal é contundente. Ao analisar a água escura e observar bolhas produzidas por bactérias em fermentação, a pesquisadora resumiu a situação com uma frase direta: “Meu Deus, que cheiro. Você poderia morrer se bebesse isso”.
A reportagem destaca que partes da represa estão contaminadas por esgoto doméstico, resíduos industriais, medicamentos, microplásticos e material fecal. Segundo especialistas, a qualidade da água e a capacidade de armazenamento do reservatório vêm piorando nos últimos dez anos.
O contraste chama atenção justamente porque a Billings está localizada na região metropolitana da cidade mais rica da América Latina. Construída para impulsionar a industrialização paulista, a represa acabou se tornando o que urbanistas classificam como uma “zona de sacrifício ambiental”.
Outro ponto abordado pelo The Guardian é a expansão urbana descontrolada ao redor do reservatório. Atualmente, cerca de 1,5 milhão de pessoas vivem nas proximidades da Billings, muitas delas em ocupações irregulares e áreas ambientalmente protegidas.
Segundo a reportagem, o avanço de loteamentos clandestinos e o desmatamento das margens contribuem para a degradação do reservatório. Embora praticamente toda a orla da Billings esteja protegida por legislação ambiental, imagens aéreas mostram novas construções surgindo em áreas onde a ocupação deveria ser proibida.
O jornal também relata denúncias sobre a atuação de grupos ligados ao mercado ilegal de terras e até de organizações criminosas interessadas na expansão imobiliária da região. Fontes ouvidas pela publicação apontam a existência de uma rede envolvendo loteadores clandestinos, agentes políticos locais e intermediários que facilitariam ocupações em áreas protegidas.
Além dos problemas ambientais, moradores convivem com enchentes frequentes, falta de infraestrutura e os efeitos cada vez mais intensos das mudanças climáticas. Em algumas comunidades instaladas às margens da represa, casas chegam a ficar inundadas durante períodos de chuva intensa.
Para especialistas entrevistados pelo jornal britânico, a situação da Billings funciona como um alerta para o futuro hídrico de São Paulo. A cidade já enfrentou uma grave crise de abastecimento em 2015 e pode voltar a depender ainda mais da represa em períodos de seca provocados pelas mudanças climáticas.
A reportagem conclui que, apesar do cenário preocupante, ainda existe possibilidade de recuperação. Ambientalistas, pesquisadores e moradores seguem pressionando por fiscalização mais rigorosa, combate ao desmatamento, ampliação do saneamento básico e proteção das áreas verdes que ainda resistem ao avanço urbano.
A situação exposta pelo The Guardian revela um paradoxo: mesmo sendo a cidade mais rica da América Latina, São Paulo ainda enfrenta dificuldades para proteger uma de suas principais fontes de água, transformando um patrimônio estratégico em um dos maiores desafios ambientais da metrópole.



