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ORGULHO DO PARÁ: Cientista paraense é eleito um dos jovens pesquisadores mais promissores do mundo; estudo pode revolucionar a neurociência

Formado pela UFPA, Kauê Costa integra lista da revista Scientific American e lidera pesquisas sobre dopamina que podem abrir caminho para novos tratamentos contra Parkinson, dependência química e transtornos mentais.

O Pará acaba de conquistar mais um motivo de orgulho no cenário científico internacional. O biólogo e neurocientista Kauê Costa, nascido em Belém e formado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), foi escolhido pela tradicional revista norte-americana Scientific American como um dos 28 jovens cientistas mais promissores do mundo.

A publicação, fundada em 1845 e considerada uma das mais respeitadas revistas de divulgação científica do planeta, selecionou pesquisadores que vêm produzindo descobertas capazes de transformar diferentes áreas do conhecimento. Entre centenas de indicados por universidades e cientistas de diversos países, apenas 28 nomes foram escolhidos.

Hoje, aos 36 anos, Kauê Costa é professor associado da Universidade de Birmingham, no estado do Alabama, nos Estados Unidos, onde coordena um laboratório próprio dedicado ao estudo do cérebro humano.

Da infância em Belém aos maiores centros científicos do mundo

A paixão pela ciência começou ainda na infância.

Criado em Belém, Kauê imaginava que seu futuro estaria ligado ao estudo da fauna e da flora amazônicas. Aos 13 anos, recebeu um prêmio do Museu Paraense Emílio Goeldi por um trabalho sobre aves migratórias, experiência que despertou ainda mais seu interesse pela pesquisa.

Foi durante a graduação em Ciências Biológicas na UFPA, porém, que sua trajetória mudou completamente.

Sob orientação do professor Manoel da Silva Filho, iniciou pesquisas em neurociência e descobriu que seu verdadeiro interesse estava em entender como funciona o cérebro.

“Percebi que não era muito a minha praia essa coisa de campo. Eu gosto mesmo de uma sala com ar-condicionado e banheiros”, brincou o pesquisador em entrevista.

Após concluir a graduação, fez mestrado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) e, posteriormente, conquistou uma vaga de doutorado no renomado Instituto Max Planck para Circuitos Neurais, na Alemanha, um dos maiores centros de pesquisa científica do planeta.

Depois do doutorado, realizou pós-doutorado no National Institute on Drug Abuse (NIDA), órgão ligado aos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos.

Em sua trajetória internacional, publicou 14 artigos científicos em algumas das revistas mais importantes do mundo, como Nature, Nature Neuroscience e Current Biology.

Pesquisa busca entender como o cérebro aprende

O foco das pesquisas de Kauê Costa é um dos maiores desafios da neurociência moderna: compreender como o cérebro aprende.

No centro desse estudo está a dopamina, neurotransmissor conhecido por participar de funções como:

  • aprendizado;
  • memória;
  • motivação;
  • tomada de decisões;
  • recompensa;
  • prazer;
  • desenvolvimento de vícios.

Durante muitos anos, acreditava-se que a dopamina atuava apenas como um “sinal de recompensa”.

Os estudos desenvolvidos pelo pesquisador paraense mostram que sua função é muito mais complexa.

Segundo Costa, determinadas regiões do cérebro criam representações mentais do mundo ao nosso redor e a dopamina também participa da atualização dessas representações sempre que nossas expectativas não correspondem à realidade.

Em outras palavras, o cérebro aprende justamente quando percebe que errou uma previsão.

Esse mecanismo, conhecido como erro de previsão de recompensa, é considerado um dos motores fundamentais do aprendizado humano.

Descobertas podem ajudar no tratamento de doenças

Embora seja classificada como ciência básica, a pesquisa tem enorme potencial para gerar aplicações médicas no futuro.

Segundo o pesquisador, praticamente todas as doenças neurológicas e psiquiátricas apresentam alterações em processos de aprendizagem.

Ao compreender exatamente como esse sistema funciona em pessoas saudáveis, torna-se possível identificar onde ele falha em pacientes.

Entre as doenças que poderão ser beneficiadas estão:

  • Doença de Parkinson;
  • dependência química;
  • alcoolismo;
  • compulsões;
  • transtornos psiquiátricos;
  • distúrbios relacionados ao aprendizado.

No caso do Parkinson, por exemplo, ocorre a morte progressiva dos neurônios produtores de dopamina.

Hoje, o tratamento consiste principalmente na reposição desse neurotransmissor.

Entretanto, esse procedimento pode provocar efeitos colaterais importantes, como aumento da impulsividade e desenvolvimento de vícios.

O laboratório coordenado por Kauê busca justamente compreender esses mecanismos para que, no futuro, seja possível desenvolver tratamentos muito mais específicos e eficazes.

O pesquisador acredita que, no futuro, poderão surgir terapias comportamentais capazes de “reprogramar” padrões de aprendizado considerados patológicos.

Redes sociais usam mecanismos semelhantes

As pesquisas também ajudam a explicar por que aplicativos e redes sociais conseguem prender tanto a atenção das pessoas.

Segundo Kauê Costa, empresas de tecnologia utilizam princípios muito semelhantes aos estudados pela neurociência.

Um dos principais é o chamado reforço intermitente.

Nesse sistema, a recompensa acontece de maneira imprevisível.

É exatamente isso que ocorre quando alguém atualiza repetidamente um feed esperando encontrar uma novidade interessante.

Esse comportamento ativa circuitos ligados à dopamina, aumentando a chance de que a ação seja repetida inúmeras vezes.

Segundo o pesquisador, compreender esses mecanismos poderá ajudar futuramente na criação de estratégias para reduzir comportamentos compulsivos relacionados ao uso excessivo das redes sociais.

Descobertas também podem influenciar a Inteligência Artificial

Outro campo diretamente impactado pelos estudos é a Inteligência Artificial.

Costa explica que os primeiros modelos matemáticos utilizados na IA foram inspirados justamente em teorias desenvolvidas por psicólogos que estudavam como humanos e animais aprendem.

Quanto mais a ciência compreender os mecanismos biológicos do aprendizado, maiores serão as possibilidades de construir sistemas inteligentes capazes de aprender de maneira semelhante ao cérebro humano.

Hoje, inclusive, a própria Inteligência Artificial já auxilia o laboratório do pesquisador na criação de modelos computacionais e na análise de grandes volumes de dados científicos.

Um laboratório com identidade amazônica

Mesmo vivendo nos Estados Unidos, Kauê Costa faz questão de manter viva sua ligação com o Pará.

Casado com uma médica armênia e pai de dois filhos, ele afirma que não pretende retornar ao Brasil de forma permanente neste momento, mas continua colaborando com pesquisadores paraenses.

A homenagem mais simbólica às suas origens está no próprio laboratório.

O logotipo da equipe foi inspirado na arte marajoara, um dos maiores patrimônios culturais da Amazônia.

Segundo o pesquisador, essa foi uma maneira de destacar sua identidade.

“Já é difícil encontrar brasileiros no círculo de pesquisadores do qual faço parte. Alguém do Norte, com uma história e ascendência cabocla e indígena, como a minha, é ainda mais raro. Por isso quis chamar atenção para algo único”, afirmou.

Um orgulho para o Pará

A escolha de Kauê Costa pela Scientific American representa um reconhecimento internacional não apenas ao pesquisador, mas também à ciência produzida no Pará.

Sua trajetória demonstra como a formação em instituições públicas brasileiras, como a UFPA, pode abrir caminho para pesquisas capazes de transformar o conhecimento sobre o cérebro humano e, futuramente, contribuir para o desenvolvimento de novos tratamentos para doenças neurológicas, transtornos mentais e dependência química.

A conquista coloca um cientista paraense entre os principais nomes da nova geração da ciência mundial e reforça o potencial da pesquisa brasileira em um dos campos mais desafiadores da atualidade: compreender como o cérebro aprende e como esse conhecimento pode melhorar a vida de milhões de pessoas.

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