BELÉMNOTÍCIANOTÍCIASOPINIÃOPará

Doutor Daniel: socialista? Populista? Direita anticapitalista?

Mudança do PSB para o Podemos aproximou ex-prefeito de Ananindeua do campo conservador, mas discurso contra concessionárias privadas levanta dúvidas sobre qual será sua agenda econômica.

Tentar decifrar o posicionamento político de Dr. Daniel talvez seja uma das tarefas mais difíceis da política paraense atual.

Ao longo de sua trajetória, o ex-prefeito de Ananindeua passou por diferentes grupos e alianças políticas, algo que, por si só, não é exatamente uma novidade na política brasileira. Trocar de partido ou construir novas composições faz parte do jogo eleitoral. O que chama atenção, porém, é a dificuldade de identificar uma linha ideológica clara que sirva de referência para compreender qual projeto político e econômico ele pretende defender para o Pará.

A mudança mais recente ilustra bem esse cenário. Após passar pelo PSB, partido alinhado ao governo do presidente Lula e tradicionalmente identificado com a centro-esquerda, Dr. Daniel migrou para o Podemos, legenda comandada no Pará pelo senador Zequinha Marinho, uma das principais lideranças conservadoras do estado. A filiação foi apresentada como parte da construção de sua pré-candidatura ao governo estadual.

O movimento aproximou Dr. Daniel de setores da direita paraense, especialmente do grupo político liderado por Zequinha Marinho, que defende pautas conservadoras e possui forte ligação com segmentos evangélicos e do agronegócio.

Além disso, sua pré-campanha passou a dialogar com figuras identificadas com o liberalismo econômico e com partidos que defendem menor participação do Estado na economia, ampliação das concessões e fortalecimento da iniciativa privada.

Entretanto, quando o assunto passa a ser serviços públicos concedidos à iniciativa privada, o discurso adotado por Dr. Daniel parece seguir outro caminho.

Nos últimos meses, o pré-candidato intensificou críticas contra empresas responsáveis por concessões estaduais. Primeiro foi a concessionária responsável pela PA-150. Depois, as críticas passaram a se concentrar na Águas do Pará, empresa que assumiu recentemente parte dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário na Região Metropolitana de Belém.

É legítimo cobrar resultados e fiscalizar contratos. Afinal, concessões públicas precisam ser acompanhadas de perto e submetidas ao interesse coletivo. O problema surge quando o debate deixa de discutir metas, investimentos e indicadores para assumir um tom de confronto político permanente.

O saneamento paraense é resultado de décadas de atraso. Menos de um quinto da população possui acesso à coleta de esgoto, um dos piores índices do país. Esse cenário não surgiu nos últimos meses. É consequência de problemas históricos acumulados ao longo de décadas de gestão pública insuficiente e baixa capacidade de investimento.

Naturalmente, a chegada de uma concessionária privada não resolve em poucos meses problemas que se arrastam há mais de meio século. Antes da expansão dos serviços, existe uma etapa inevitável de diagnóstico, recuperação de sistemas, manutenção emergencial e reorganização operacional.

Nesse contexto, causa estranheza que um político atualmente vinculado a um partido que busca apoio do eleitorado conservador e liberal adote um discurso que, em muitos momentos, parece hostil à participação da iniciativa privada.

A questão não é defender empresas ou ignorar falhas. A questão é compreender qual sinal está sendo enviado ao mercado e aos investidores. Quando um pré-candidato fala em rever contratos ou suspender concessões sem apresentar claramente quais cláusulas foram descumpridas, cria-se um ambiente de incerteza que pode afastar investimentos justamente em setores onde o Pará mais necessita deles.

Talvez a principal dúvida em torno de Dr. Daniel não seja se ele é de direita ou de esquerda. A dúvida é qual modelo de desenvolvimento ele pretende defender.

Seu discurso político parece combinar elementos conservadores nos costumes com críticas frequentes à atuação de empresas privadas em serviços públicos. Uma combinação pouco comum dentro da direita liberal brasileira e que ainda deixa muitas perguntas sem resposta sobre qual seria, na prática, sua agenda para o estado.

Etiquetas

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Fechar