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Colônia Japonesa em Tomé-Açu torna-se referência contra desmatamento ao criar ‘Florestas de Comida’

Em meio às paisagens exuberantes de Tomé-Açu, no interior do Pará, a colônia japonesa estabeleceu um modelo inovador que desafia os desafios do desmatamento e da degradação ambiental. Sob a liderança do engenheiro florestal japonês Noboru Sakaguchi, a comunidade enfrentou uma praga devastadora nos anos 1970 que dizimou plantações, resultando em uma mudança radical na abordagem agrícola.

Japonesas com trajes típicos em recepção ao governador do Pará em Tomé-Açu, em 1959
Fonte: Tomé-Açu Forever

A proposta de Sakaguchi era simples, mas transformadora: abandonar a monocultura e adotar a diversidade encontrada na Floresta Amazônica. Inspirado pelos ribeirinhos locais, que cultivavam com harmonia, Sakaguchi propôs um novo caminho para a colônia japonesa.

Michinori Konagano, agricultor e membro da colônia, relembra o momento em que a mudança começou. “Ele (Sakaguchi) via o ribeirinho produzindo com harmonia”, destaca Konagano. A transição para agroflorestas, combinando grandes árvores com diversas frutas, transformou os campos destruídos em uma paisagem exuberante e recuperou a biodiversidade, reintroduzindo animais que haviam desaparecido.

Terra onde Konagano cultivou esta agrofloresta (à dir.) se parecia com pastagem degradada da fazenda vizinha (à esq.) 15 anos atrás
Foto: BBC Brasil

Hoje, a comunidade de Tomé-Açu é um exemplo global de práticas agrícolas sustentáveis. Com 46 mil japoneses que migraram para o Pará entre 1952 e 1965, a colônia diversificou sua produção, incluindo cacau, açaí, cupuaçu, pitaya, madeira e óleos vegetais em 230 hectares de área cultivada.

O sucesso do modelo, conhecido como Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu (Safta), não apenas impulsionou a economia local, mas também atraiu atenção internacional. Os agricultores da colônia, ao resgatar técnicas agrícolas ancestrais japonesas, promovem a sustentabilidade e a conexão com a natureza, guiados pelo princípio japonês “mottainai” (que desperdício).

Michinori Konagano diz que sistema agroflorestal de Tomé-Açu é inspirado em métodos ribeirinhos e em práticas ancestrais japonesas
Fonte: BBC Brasil

O pesquisador da Embrapa Osvaldo Kato destaca Tomé-Açu como o maior e mais bem-sucedido experimento econômico desse tipo no Brasil. O Safta, que combina benefícios econômicos com preservação ambiental, tem atraído interesse em diferentes partes do país e até em outras nações latino-americanas e africanas.

No entanto, apesar do sucesso do Safta, a comunidade enfrenta desafios na sucessão. Muitos jovens filhos dos agricultores buscam oportunidades fora de Tomé-Açu, ameaçando a continuidade do modelo. Enquanto a próxima geração decide o futuro, Michinori Konagano já está comprometido em compartilhar o conhecimento, recebendo pesquisadores e agricultores interessados e ministrando palestras para garantir que o legado da colônia japonesa não se perca.

Tamó Mineshita com a filha, Jenifer: sucessão nas propriedades é um desafio para as famílias nipo-brasileiras de Tomé-Açu
Fonte: BBC Brasil

A história de Tomé-Açu é mais do que um relato de sucesso agrícola; é um testemunho da capacidade humana de aprender com a natureza e transformar desafios em oportunidades, apontando um caminho sustentável para as comunidades ao redor do mundo.

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