Vídeo com Gordo do Aurá recoloca Daniel Santos no centro da disputa com grupo Barbalho
Registro de 2018 recuperado durante a campanha reacende discussão sobre antigas alianças do candidato; cenário atual guarda semelhanças com a sucessão de 2018, quando Helder enfrentou o grupo de Simão Jatene

Um vídeo de 2018 em que Daniel Santos aparece ao lado do ex-vereador Deivite Wener Araújo Galvão, conhecido como Gordo do Aurá, voltou a circular durante a campanha para o Governo do Pará e abriu uma nova frente de disputa política em torno do candidato do Podemos. O registro recupera uma relação política construída quando Daniel ainda era vereador de Ananindeua e concorria a deputado estadual. Naquele período, Gordo do Aurá declarou apoio à candidatura de Daniel.
A retomada das imagens ocorre em uma eleição na qual Daniel disputa o governo contra Hana Ghassan (MDB), atual governadora e candidata à reeleição. Hana assumiu o cargo em abril, depois da renúncia de Helder Barbalho, que deixou o Executivo para disputar uma das duas vagas do Pará no Senado. Na chapa de Helder, o primeiro suplente é justamente seu pai, o senador Jader Barbalho.
Quem era o Gordo do Aurá
Deivite Wener Araújo Galvão foi vereador de Ananindeua e ficou conhecido como Gordo do Aurá. Sua trajetória política também foi marcada por investigações e acusações relacionadas ao tráfico de drogas e ao crime organizado, que ele negava. Ele foi preso em setembro de 2018 durante a Operação Cristo Redentor e acabou assassinado em fevereiro de 2019, aos 37 anos.
A relação com Daniel, entretanto, antecede a prisão. Registros daquele ano mostram os dois juntos durante a campanha para deputado estadual. Em entrevista reproduzida na época, Márcio Miranda afirmou que uma gravação havia sido feita durante o lançamento da candidatura de Daniel e alegou que imagens tinham sido editadas para retirar outros participantes. A declaração foi feita por Miranda durante a campanha e deve ser tratada como a versão apresentada por ele naquele momento.
A homenagem que aconteceu durante a gestão de Daniel
A ligação voltou a aparecer publicamente depois que Daniel chegou à Prefeitura de Ananindeua. Em dezembro de 2023, a administração municipal entregou uma praça no bairro do Aurá com o nome de Deivite Wener Araújo Galvão. A mudança de nome havia sido proposta pelo vereador Rui Begot por meio do Projeto de Lei nº 130/2023.
O episódio, por si só, não estabelece participação de Daniel nos crimes atribuídos a Gordo do Aurá nem no assassinato do ex-vereador. A Polícia Civil voltou a investigar a morte em 2023, quando deflagrou a Operação Aurá para cumprir mandados de busca e apreensão relacionados ao homicídio.
O paralelo com a eleição de 2018
O contexto atual também permite uma comparação com a disputa estadual de 2018. Naquele ano, Simão Jatene estava no fim do governo e seu grupo lançou Márcio Miranda como candidato ao Executivo. Do outro lado estava Helder Barbalho, então ex-ministro e ex-prefeito de Ananindeua, que buscava pela segunda vez chegar ao governo estadual.
Helder terminou o primeiro turno na liderança, com 47,70% dos votos válidos, e enfrentou Miranda no segundo turno. O candidato apoiado por Jatene terminou a primeira etapa com 30,20%. Na votação decisiva, Helder venceu por 55,43% a 44,57% e recolocou o MDB no comando do Pará depois de 24 anos.
Naquela eleição, a disputa também envolveu diretamente a família Barbalho. Jader Barbalho concorria ao Senado na mesma chapa de Helder, enquanto o grupo de Jatene tentava preservar o comando estadual com Márcio Miranda. Na campanha de Helder, além de utilizar a associação de Márcio ao Gordo do Aurá, a chapa também ampliou sua aliança para o segundo turno, quando recebeu o apoio do PT.
De Helder candidato a articulador da sucessão
O cenário de 2026 tem uma diferença importante: Helder não está mais disputando o governo. Depois de sete anos e três meses à frente do Estado, deixou o cargo em 2 de abril para concorrer ao Senado, e Hana, sua vice desde 2022, assumiu o Executivo.
Hana agora tenta transformar a passagem pelo governo em uma candidatura própria à reeleição, enquanto Daniel chega à disputa depois de deixar a Prefeitura de Ananindeua. A semelhança com 2018 está no fato de que novamente um ex-prefeito de Ananindeua disputa o Palácio dos Despachos em um confronto com o grupo que controla o Executivo estadual. A diferença é que, desta vez, a candidata governista é justamente a sucessora escolhida dentro da estrutura que Helder deixou.
Hana e Daniel chegam ao confronto direto
As pesquisas ajudam a dimensionar por que a disputa ganhou peso. Levantamento Genial/Quaest divulgado em abril mostrou Hana com 19% das intenções de voto e Daniel com 22%, dentro da margem de erro de três pontos percentuais. Em um eventual segundo turno pesquisado naquele momento, Daniel aparecia com 35% e Hana com 29%. Esses números são daquele levantamento e não representam uma previsão do resultado da eleição.
Ao longo da campanha, o confronto também passou a envolver diretamente Helder. O ex-governador tem aparecido na comunicação eleitoral do MDB ao lado de Hana e, em direito de resposta concedido pela Justiça Eleitoral, pediu votos para a governadora e para sua própria candidatura ao Senado.
Do outro lado, a recuperação de episódios da trajetória política de Daniel, como o vídeo com Gordo do Aurá, mostra como alianças antigas de Ananindeua voltaram ao debate eleitoral. A estratégia de explorar esse passado é uma decisão das campanhas e dos grupos políticos envolvidos; o efeito eleitoral dessa abordagem não pode ser estabelecido apenas pela circulação dos vídeos.
A família Barbalho no centro da eleição
A estrutura política do MDB também atravessa diferentes candidaturas. Jader Filho, irmão de Helder e presidente estadual do MDB, deixou o Ministério das Cidades em abril para disputar uma vaga de deputado federal. O próprio partido apresenta Jader Filho como coordenador da campanha que reelegeu Helder em 2022.
No Senado, Helder disputa uma das duas vagas disponíveis pelo Pará e tem Jader Barbalho, seu pai, como primeiro suplente. A composição faz com que a eleição deste ano reúna, simultaneamente, pai e filho na mesma chapa para o Senado e Hana no comando da campanha estadual do MDB.
Assim, embora Daniel e Hana sejam os candidatos diretamente colocados frente a frente pela disputa do Governo do Pará, a campanha também é marcada pela presença de Helder como candidato ao Senado e principal liderança do grupo que deixou o governo. A circulação do vídeo com Gordo do Aurá acrescenta outro elemento à disputa: o resgate de alianças construídas por Daniel antes de chegar à Prefeitura e de se tornar um dos principais nomes da oposição ao grupo emedebista.



