A história da Física no Pará passa, necessariamente, pelo nome de Carmelina Nobuko Kobayashi. Aos 83 anos, ela é reconhecida como a primeira mulher formada no curso de Física da Universidade Federal do Pará (UFPA), ainda na década de 1960 — um feito pioneiro em uma área historicamente dominada por homens.
A homenagem mais recente veio durante a semana do Dia Internacional da Mulher, quando professores, alunos e pesquisadores celebraram sua trajetória em uma programação especial promovida pelo Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física da UFPA.
Filha de imigrantes japoneses, Carmelina nasceu em Parintins (AM), mas cresceu no interior do Pará, entre Juruti, Óbidos e Santarém. Desde cedo, enfrentou dificuldades para estudar, precisando se deslocar entre cidades em busca de acesso à educação — algo raro, especialmente para mulheres na época.
Determinada a seguir os estudos, chegou a Belém ainda jovem e ingressou no ensino secundário, onde teve contato mais aprofundado com a Física — disciplina que despertou seu interesse pela ciência. Em 1965, entrou na primeira turma do curso de Física da UFPA, recém-criado.
Inicialmente, pensava em seguir na Química, mas mudou de caminho após uma experiência em laboratório. Foi na Física que construiu sua carreira e ajudou a estruturar o ensino da área na região Norte. Da turma inicial, apenas quatro estudantes concluíram o curso.
Carmelina não apenas se formou: ajudou a consolidar o curso em um período de escassez de recursos, com poucos equipamentos e professores ainda em formação. Participou da implantação de laboratórios e da adaptação de materiais técnicos, contribuindo diretamente para o desenvolvimento da área na universidade.
Ao longo da trajetória, enfrentou episódios de preconceito por ser mulher em um campo científico. Em uma de suas primeiras experiências como professora, chegou a deixar o cargo após enfrentar resistência de alunos que não aceitavam ter aulas com uma mulher. Em outra ocasião, recusou uma proposta de trabalho ao descobrir que receberia metade do salário pago a homens.
Mesmo diante dos obstáculos, construiu uma carreira sólida no magistério. Ingressou como docente da UFPA em 1970 e dedicou mais de duas décadas ao ensino, formando gerações de estudantes e contribuindo para a consolidação da Física na região.
“Não há erro em afirmar que as mulheres foram as fundadoras do curso de Física na UFPA”, resume, com a autoridade de quem fez parte dessa história desde o início.
Mais do que pioneira, Carmelina Kobayashi representa uma geração que abriu caminhos na ciência amazônica — enfrentando barreiras e ajudando a transformar a universidade pública em um espaço mais diverso e acessível.



