Belém entrou em uma das fases mais críticas do Plano de Ação Municipal para o Enfrentamento ao El Niño 2026-2027. Desde outubro, a capital paraense está no nível 3 de alerta, estágio considerado máximo no protocolo municipal para situações de calor extremo. A previsão é de temperaturas que podem alcançar 39°C ou mais, enquanto a sensação térmica pode chegar a 43°C.
O cenário preocupa especialmente porque os meses de outubro e novembro estão entre os períodos mais quentes do ano em Belém e também coincidem com um dos momentos de maior movimentação nas ruas da cidade: o Círio de Nazaré.
O plano foi elaborado pela Prefeitura de Belém a partir da previsão de intensificação dos efeitos do fenômeno climático. O trabalho reúne diferentes órgãos municipais, além do Corpo de Bombeiros Militar do Pará e do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).
As ações foram consolidadas no Protocolo de Alerta e Enfrentamento ao Calor Extremo, elaborado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Belém (Semma). O documento estabelece quatro níveis de alerta e define tanto as medidas que devem ser adotadas pelo poder público quanto as recomendações para a população.
O que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático natural provocado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical. Esse aquecimento interfere na circulação atmosférica e altera os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.
No Norte do Brasil, um dos principais efeitos associados ao fenômeno é a redução das chuvas e o aumento das temperaturas, criando condições favoráveis para períodos de calor mais intenso e maior risco de incêndios e queimadas.
No Sul, por outro lado, o El Niño costuma estar associado ao aumento das chuvas, podendo contribuir para episódios de enchentes e deslizamentos.
O plano elaborado para Belém considera justamente os efeitos que podem atingir a capital paraense e estabelece uma estratégia de preparação gradual, conforme a intensidade do calor.
Prefeitura começou preparação antes do período crítico
Segundo a titular da Semma, Juliana Nobre, o protocolo foi criado para permitir que o município se antecipe aos impactos provocados pelo fenômeno.
“Precisamos estar preparados e esse protocolo tem justamente esse papel: integrar os diferentes órgãos e estabelecer ações de monitoramento, prevenção e resposta, permitindo que se antecipem cenários e se proteja principalmente as populações e os territórios mais vulneráveis.”
De acordo com a Prefeitura, esta é a primeira vez que o município reúne em um único documento um planejamento mais abrangente para orientar a atuação diante dos diferentes impactos associados ao El Niño e ao calor extremo.
A preparação começou ainda nos meses anteriores à chegada do período mais quente. Entre julho e setembro, quando Belém esteve nos níveis 1 e 2 do protocolo, foram intensificadas medidas relacionadas principalmente à arborização e à criação de áreas capazes de amenizar o calor.
Entre as ações estão o plantio de mudas, criação de corredores verdes, transplantio de árvores, implantação de microflorestas e expansão dos jardins de chuva, especialmente em áreas consideradas mais vulneráveis.
A Prefeitura também passou a incentivar a participação da população por meio do programa Plante Aqui, voltado à arborização urbana.
Protocolo possui quatro níveis de alerta
A assessora técnica da Semma Bárbara Paiva, uma das responsáveis pela elaboração do Plano de Ação e do Protocolo de Calor Extremo, explica que a divisão em níveis permite que as medidas sejam adotadas de acordo com a intensidade do calor.
“Nós estabelecemos níveis de alerta para orientar a população sobre como agir para mitigar os efeitos do calor e também para explicar quais são as ações da Prefeitura em cada nível. Isso envolve tanto as medidas que serão adotadas pelo poder público quanto aquilo que cada pessoa pode fazer, individualmente, para se proteger e contribuir para a mitigação dos efeitos do fenômeno.”
O nível 1 corresponde a temperaturas de até 36°C. Nesta etapa, o município intensifica principalmente as ações preventivas, como arborização, plantio de mudas e criação de estruturas verdes.
Foi durante esse período que avançaram iniciativas como os corredores verdes, microflorestas, jardins de chuva e o programa Plante Aqui.
No nível 2, quando as temperaturas ficam entre 36°C e 38°C, o alerta de onda de calor é confirmado. A Prefeitura passa a designar áreas verdes arborizadas como pontos oficiais de resfriamento, além de emitir boletins climáticos diários, com informações sobre as ilhas de calor existentes na cidade.
Também há reforço da assistência social por meio da Fundação Papa João XXIII (Funpapa) e ativação de protocolos específicos relacionados aos riscos provocados pelo calor extremo.
Outro ponto previsto no planejamento é o reforço da distribuição de água em locais de atendimento público, como Unidades Básicas de Saúde, Centros de Referência de Assistência Social e escolas.
Outubro marca chegada ao alerta máximo
Com a chegada de outubro, Belém passa ao nível 3, considerado o estágio de alerta máximo previsto no protocolo municipal.
Nesta fase, a previsão é de temperaturas de 39°C ou mais, com sensação térmica podendo atingir 43°C.
O calor extremo passa a exigir medidas mais rigorosas. Entre elas está a previsão de decretação de situação de emergência ambiental e proibição total das queimadas.
O período também exige atenção especial por ocorrer durante o Círio de Nazaré, quando milhares de pessoas ocupam as ruas de Belém durante as procissões e demais programações relacionadas à quadra nazarena.
Círio terá pontos de hidratação e atendimento
A preocupação com o calor durante o Círio fez com que o protocolo previsse medidas específicas para o período.
Entre as ações planejadas estão a instalação de pontos de hidratação, distribuição gratuita de água, espaços para triagem médica e jatos de água itinerantes.
Também está prevista a climatização de abrigos destinados às populações mais vulneráveis.
Outra medida prevista no nível 3 é a suspensão de atividades e programações realizadas ao ar livre, dependendo das condições registradas e das avaliações dos órgãos responsáveis.
A preocupação não é apenas com o desconforto provocado pelas altas temperaturas. A exposição prolongada ao calor pode aumentar o risco de desidratação e de problemas relacionados ao estresse térmico, principalmente entre pessoas mais vulneráveis.
Crianças, idosos e pessoas com comorbidades exigem atenção
O protocolo chama atenção especialmente para crianças, idosos e pessoas com comorbidades, grupos que podem apresentar maior vulnerabilidade durante episódios de calor extremo.
A recomendação é reforçar a hidratação e evitar a exposição desnecessária às altas temperaturas.
No nível 3, a orientação é evitar sair de casa sempre que possível, principalmente entre 10h e 16h, período em que a exposição ao calor deve ser reduzida.
Também é recomendado diminuir o consumo de bebidas que podem favorecer a desidratação, como álcool e café, além de manter uma ingestão adequada de água.
Em caso de sintomas de mal-estar relacionados ao calor, a recomendação é procurar atendimento médico. Em situações de emergência, a população pode acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo número 192.
Nível 4 será usado para avaliação do protocolo
O planejamento municipal prevê ainda um quarto nível, relacionado aos meses de dezembro de 2026 e janeiro de 2027.
Apesar de o período ser projetado com temperaturas mais amenas em comparação com outubro e novembro, essa etapa será utilizada pela Prefeitura para avaliar os resultados das medidas adotadas durante o período crítico.
A intenção é identificar quais ações funcionaram, quais estruturas precisam ser ampliadas e quais mudanças devem ser incorporadas ao planejamento de 2027.
Para Belém, o episódio também reforça um desafio que vai além de um único verão: a necessidade de adaptar a cidade ao aumento da frequência de eventos extremos, com mais arborização, áreas de sombra, espaços de resfriamento, infraestrutura urbana adequada e proteção das populações mais vulneráveis.
Enquanto o nível 3 estiver vigente, a recomendação das autoridades é que a população acompanhe os boletins oficiais, mantenha-se hidratada e reduza a exposição direta ao sol nos horários de maior calor.



