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Municípios do Pará gastaram quase R$ 80 milhões com grandes shows, aponta dossiê

Levantamento do observatório De Olho nos Ruralistas identificou 146 contratos firmados por prefeituras paraenses e aponta concentração de cachês milionários, contratações sem licitação e relação com emendas parlamentares.

Os municípios do Pará destinaram quase R$ 80 milhões para a contratação de grandes artistas nacionais em festas e eventos públicos entre 2024 e o início de 2026. Os dados fazem parte do dossiê “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio”, produzido pelo observatório De Olho nos Ruralistas.

A pesquisa analisou mais de 20 mil contratos firmados por prefeituras e governos estaduais em todo o Brasil. Segundo o levantamento, apenas os 40 artistas mais contratados receberam, juntos, R$ 3,08 bilhões em cachês no período analisado. Quando considerados os 100 artistas com maior volume de contratações, o valor ultrapassa R$ 5 bilhões — montante superior ao orçamento previsto para o Ministério da Cultura em 2026, estimado em R$ 3,26 bilhões.

De acordo com os pesquisadores, o problema não está apenas nos valores elevados dos cachês, mas também no modelo de contratação. O relatório afirma que a maior parte dos shows ocorre por inexigibilidade de licitação, mecanismo permitido pela legislação em determinadas situações, mas que dispensa concorrência pública e, muitas vezes, não apresenta justificativas detalhadas sobre os valores pagos.

Pará soma 146 contratos e R$ 79,3 milhões

No Pará, a planilha do levantamento reúne 146 contratos, que totalizam aproximadamente R$ 79,35 milhões em cachês pagos por prefeituras a artistas que integram o ranking nacional analisado pelo estudo.

O maior cachê individual identificado foi de R$ 1,2 milhão, pago pela Prefeitura de Santana do Araguaia para um show de Wesley Safadão.

Também aparecem contratos de:

  • R$ 1 milhão para Simone Mendes, em Tucuruí;
  • R$ 1 milhão para Ana Castela, em Breu Branco;
  • R$ 1 milhão para Zezé Di Camargo, em Marabá.

Conceição do Araguaia lidera gastos

Entre os municípios paraenses, Conceição do Araguaia aparece como a cidade que mais investiu em grandes atrações nacionais.

Foram 16 contratos, que somam aproximadamente R$ 9,06 milhões, em um município com pouco mais de 47 mil habitantes.

Na sequência aparecem:

  • Tucuruí — R$ 6,65 milhões;
  • Santana do Araguaia — R$ 4,37 milhões;
  • Barcarena — R$ 4,21 milhões;
  • Marabá — R$ 3,4 milhões.

O estudo também chama atenção para municípios de pequeno porte que registraram contratações expressivas.

Em Palestina do Pará, por exemplo, cidade com cerca de 7 mil habitantes, foram identificados contratos de:

  • R$ 370 mil para Henry Freitas;
  • R$ 450 mil para Tarcísio do Acordeon;
  • R$ 300 mil para Iguinho & Lulinha.

Piçarra, com aproximadamente 13 mil moradores, aparece com um contrato de R$ 700 mil para apresentação de Henry Freitas.

Segundo o levantamento, Conceição do Araguaia é o município paraense que proporcionalmente mais compromete recursos públicos com grandes shows, destinando cerca de 1,55% do orçamento municipal para esse tipo de contratação.

Produtoras concentram maior parte dos contratos

O levantamento também analisou a concentração de contratos entre produtoras responsáveis pelos artistas.

No Pará, a liderança é da Camarote Shows, empresa ligada ao cantor Wesley Safadão, que soma cerca de R$ 16,18 milhões em contratos distribuídos por 32 apresentações.

Na sequência aparecem:

  • Vybbe — R$ 13,57 milhões;
  • Full Produções — R$ 13,26 milhões.

Também figuram empresas como WorkShow, Salvador Produções, Boom Entretenimento, RSS Produções, LB Produções, M&P Produções Artísticas e Tapajós Produções.

Tucuruí é citado em capítulo sobre emendas parlamentares

Um dos casos destacados pelo relatório envolve o município de Tucuruí.

Segundo o dossiê, o prefeito Alexandre Siqueira (MDB) é casado com a deputada federal Andreia Siqueira (PSB), que destinou aproximadamente R$ 16,7 milhões em emendas Pix ao município.

O levantamento ressalta que não é possível afirmar que esses recursos tenham financiado diretamente os shows, justamente porque as emendas Pix possuem baixa rastreabilidade e não exigem detalhamento específico da aplicação dos recursos.

Esse modelo de transferência vem sendo alvo de discussões e análises no Supremo Tribunal Federal (STF) em razão da necessidade de maior transparência.

Estudo aponta relação entre entretenimento, política e economia

Para os pesquisadores do De Olho nos Ruralistas, a contratação de grandes artistas por administrações públicas passou a integrar uma cadeia econômica que envolve produtoras, agentes políticos, casas de apostas esportivas, patrocinadores privados e setores ligados ao agronegócio.

O observatório afirma que o objetivo do levantamento é ampliar o debate sobre transparência, critérios para contratação de shows financiados com recursos públicos e prioridades orçamentárias adotadas pelos municípios brasileiros.

Além do Pará, o estudo reúne contratos firmados por centenas de municípios em todas as regiões do país e identifica padrões de concentração de artistas, produtoras e investimentos públicos em eventos de grande porte.

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