A Polícia Federal cumpre 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e no Distrito Federal. As medidas foram autorizadas pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A operação investiga a possível utilização irregular de recursos de emendas parlamentares repassados a organizações da sociedade civil. Entre os alvos estão Mario Frias, deputado federal pelo PL de São Paulo e produtor executivo e roteirista de “Dark Horse”, e Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment e presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB).
Em 2024, Frias destinou R$ 2 milhões em emendas ao ICB por meio de dois repasses. A organização é presidida por Karina, que também está ligada à produção do longa sobre Bolsonaro.
Segundo a PF, a investigação aponta indícios de uma organização formada por agentes públicos e privados que teria direcionado recursos para empresas subcontratadas de maneira irregular, sem comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados.
Os investigadores apuram possíveis crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes relacionados a licitações.
Contratos sob suspeita
A investigação se concentra em contratos firmados pelo Instituto Conhecer Brasil e pela Academia Nacional de Cultura, entidades presididas por Karina. A PF identificou empresas contratadas que teriam vínculos com doadores da campanha de Mario Frias, pessoas ligadas ao gabinete do parlamentar e seu advogado.
Um dos casos envolve Rudyge Alex Scatolini Boldrini, que doou R$ 4 mil à campanha de Frias em 2022. Posteriormente, ele teria recebido procuração do ICB, integrado o conselho fiscal da organização e sido contratado para atuar em um projeto financiado com recursos de emenda indicada pelo deputado.
Outro caso envolve Luiza Tessari Rocha Dias, que fez uma doação de R$ 70 mil à campanha de Frias. Pessoas ligadas ao núcleo empresarial de seu marido também aparecem entre fornecedores contratados pelo ICB.
De acordo com a investigação, contratos relacionados a esse núcleo empresarial somaram R$ 700 mil em um dos projetos financiados com recursos de uma emenda de R$ 1 milhão. A PF apura se essas relações indicam que fornecedores teriam sido definidos previamente.
Indícios apontados pela CGU
A Controladoria-Geral da União também identificou possíveis irregularidades na documentação apresentada para justificar algumas contratações.
Em um dos casos, três empresas apresentaram orçamentos com valores e estruturas idênticas para um contrato de R$ 400 mil. Segundo a CGU, os documentos foram criados no mesmo dia, com intervalo de poucos minutos, e pelo mesmo usuário.
A controladoria apontou que as semelhanças poderiam indicar uma definição prévia dos valores, em vez de uma pesquisa efetiva de preços de mercado.
A PF também identificou outros vínculos entre fornecedores, pessoas que participaram da campanha de Frias, integrantes de seu antigo gabinete e profissionais que prestaram serviços ao ICB.
Contratos e possível retrodatação
Os investigadores também encontraram indícios de que contratos, orçamentos e notas fiscais teriam sido elaborados posteriormente e retrodatados.
A suspeita é de que esses documentos tenham sido produzidos para conferir aparência de regularidade às operações e justificar os gastos perante órgãos de controle.
A PF identificou ainda movimentações financeiras entre diferentes empresas e entidades investigadas. Segundo as informações divulgadas sobre o caso, as operações financeiras analisadas fazem parte de um fluxo que envolve o parlamentar, organizações beneficiadas pelas emendas, empresas contratadas e a produtora Go Up Entertainment.
Relação com o filme
“Dark Horse” é um filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro e tem Mario Frias como produtor executivo e roteirista. A produção também é alvo de outra frente de investigação relacionada a recursos privados.
A PF apura, nesta operação, especificamente possíveis irregularidades relacionadas à utilização de emendas parlamentares destinadas ao Instituto Conhecer Brasil e a outras entidades.
Em agosto, Flávio Dino autorizou o compartilhamento com a PF de dados apreendidos em uma investigação da Polícia Civil de São Paulo, conhecida como Operação Wi-Fi. O material envolve suspeitas relacionadas a contratos firmados entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil.
Segundo informações divulgadas anteriormente, essa investigação estadual apura possíveis fraudes em um contrato de R$ 108 milhões destinado à oferta de internet gratuita. A apuração federal sobre as emendas parlamentares possui escopo próprio, embora os investigadores tenham utilizado informações obtidas na operação paulista.
Financiamento privado
O financiamento privado de “Dark Horse” também é investigado separadamente. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro teria destinado pelo menos R$ 61 milhões para a produção do longa, segundo informações divulgadas anteriormente.
Essa frente está sob relatoria do ministro André Mendonça e envolve também tratativas entre Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro relacionadas ao financiamento do filme. A investigação sobre esses recursos é diferente da operação deflagrada nesta quinta-feira por Flávio Dino.
A Polícia Federal também identificou transferências de R$ 645,4 mil feitas por Mario Frias diretamente para a Go Up Entertainment. Segundo os investigadores, o valor seria incompatível com os rendimentos e os créditos identificados nas contas do parlamentar, circunstância que levou a PF a investigar o papel de Frias no fluxo financeiro analisado.
As investigações ainda estão em andamento e as suspeitas levantadas pela Polícia Federal deverão ser analisadas no decorrer do processo.
As defesas dos envolvidos foram procuradas pela imprensa. O espaço permanece aberto para manifestações.



