A morte de Marcello Victor Carvalho de Araújo, de 24 anos, completa um ano nesta quinta-feira (8) sem que a família tenha recebido uma conclusão definitiva sobre o inquérito que investiga a atuação dos agentes envolvidos na ocorrência. O jovem morreu durante uma operação da Polícia Federal em Belém, em 8 de outubro de 2025.
A mãe de Marcello, a escrivã da Polícia Civil Ana Suellen Carvalho de Araújo, afirma que a investigação sofreu sucessivas prorrogações e questiona um novo pedido de 90 dias apresentado pela Polícia Federal em 2 de outubro. Segundo ela, uma prorrogação anterior, também de 90 dias, havia sido concedida em 25 de junho de 2026 para a elaboração do relatório final.
Ana Suellen afirma que, pelas informações às quais teve acesso, não haveria diligências relevantes, laudos ou depoimentos pendentes. Mesmo assim, segundo ela, a PF solicitou mais três meses para concluir o procedimento, justificando o pedido pela elevada carga de trabalho do delegado responsável.
“Marcello está há um ano sem vida. Nós estamos há um ano sem respostas. Polícia Federal, chega de prorrogações: concluam o inquérito”, afirmou a mãe em manifestação divulgada no aniversário da morte do filho.
Mãe questiona demora na investigação
Ana Suellen também questiona o fato de a investigação ser conduzida pela mesma instituição à qual pertencem os agentes envolvidos na ocorrência. Segundo ela, a situação exige transparência e atenção quanto à imparcialidade da apuração.
A mãe ressalta que não pretende antecipar conclusões ou defender punições sem provas. O pedido, segundo ela, é pela conclusão da investigação e pela análise dos elementos já reunidos.
“Não estou pedindo favorecimento. Não estou pedindo vingança. Não estou pedindo que alguém seja responsabilizado sem provas. Estou pedindo que a investigação seja concluída”, declarou.
Ela também afirma que a demora pode postergar uma eventual responsabilização criminal, caso a investigação identifique irregularidades na atuação dos agentes.
Operação terminou com morte no Jurunas
Marcello morreu na manhã de 8 de outubro de 2025, dentro do apartamento onde morava com a mãe, na rua dos Mundurucus, no bairro do Jurunas. Ele trabalhava como assistente administrativo da Polícia Civil do Pará.
Na ocasião, agentes federais cumpriam mandados da Operação Eclesiastes, que investigava uma organização suspeita de tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro.
O alvo da ordem de prisão no imóvel era Marcelo Pantoja Rabelo, conhecido como “Marcelo da Sucata”, que foi preso durante a operação. Marcello Victor não era o alvo do mandado.
Segundo informações divulgadas pela Polícia Federal na época, a operação resultou em 19 prisões e mobilizou equipes em diferentes locais.
A versão apresentada pela PF é de que Marcello teria reagido à abordagem, agredido um policial e tentado tomar a arma de outro agente. O relato foi apresentado publicamente pelo diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, dois dias após a ocorrência.
A família contesta essa versão e questiona a dinâmica dos disparos que atingiram o jovem.
Perícia apontou dois disparos
Um dos principais elementos da investigação é o laudo de necropsia divulgado em dezembro de 2025. O documento apontou que Marcello foi atingido por dois disparos.
De acordo com o laudo, o primeiro tiro, de pistola calibre 9 milímetros, percorreu uma trajetória de cima para baixo e atingiu a região do queixo, mas não foi apontado como causa da morte.
O segundo disparo, efetuado por um fuzil, teve trajetória de baixo para cima e provocou lesões em órgãos vitais. Esse tiro foi apontado como responsável pela morte.
O advogado da família, Jonhatan da Costa, afirmou à época que os resultados periciais reforçavam os questionamentos apresentados pela defesa sobre a versão dos agentes. A interpretação da defesa, porém, não representa uma conclusão oficial sobre a responsabilidade criminal dos envolvidos.
O caso também passou a ser acompanhado pelo Ministério Público Federal, que instaurou procedimento investigatório criminal. Em 16 de outubro de 2025, oito dias após a morte, uma nova perícia foi realizada no apartamento a pedido do órgão, com participação de representantes da Polícia Federal e da Polícia Científica do Pará.
Família realizou mobilizações ao longo do ano
Durante os 12 meses desde a morte de Marcello, familiares, amigos e apoiadores realizaram manifestações em Belém para cobrar esclarecimentos sobre o caso.
Em fevereiro de 2026, houve um ato na Praça da República. No mês seguinte, outra mobilização foi realizada em frente ao Theatro da Paz. A família também passou a utilizar as redes sociais para divulgar a campanha por esclarecimentos por meio do perfil @justicapormarcello.
Em setembro, Ana Suellen já havia se manifestado publicamente sobre a demora na investigação. Na ocasião, afirmou que, embora nenhuma investigação pudesse devolver o filho, o Estado ainda teria o dever de entregar respostas sobre o caso.
Agora, ao completar um ano da morte, a mãe volta a cobrar a conclusão do inquérito e o encaminhamento dos elementos reunidos às instituições responsáveis pela análise de eventuais crimes.
“Quantas prorrogações ainda serão necessárias para concluir aquilo que já deveria ter sido concluído?”, questionou.
Até o fechamento desta reportagem, não havia sido localizada manifestação pública atualizada da Polícia Federal ou do Ministério Público Federal sobre a situação do relatório final após o pedido de prorrogação apresentado em 2 de outubro. Também não havia conclusão oficial, nas informações apresentadas, que estabelecesse eventual responsabilidade criminal dos agentes envolvidos.



