Caso Isabelle Caracristi: entenda desde a morte da estudante até as novas diligências da polícia
Estudante de Direito, de 22 anos, foi encontrada morta em condomínio na Aldeota, em Fortaleza. Uma semana depois, namorado é procurado pela Polícia Civil, mãe dele tem aparelhos apreendidos e novas perícias são realizadas no local

A morte da estudante de Direito Isabelle Caracristi, de 22 anos, permanece sob investigação da Polícia Civil do Ceará. Encontrada morta na área externa do condomínio onde morava com o namorado e familiares dele, em Fortaleza, no último dia 13 de setembro, a jovem deixou uma série de perguntas sem resposta para a família. Nos últimos dias, novas imagens de segurança, exames periciais e diligências policiais acrescentaram informações à investigação, que chegou a uma nova etapa neste domingo (20), quando o namorado de Isabelle passou a ser procurado e a mãe dele teve aparelhos eletrônicos apreendidos.
Quem era Isabelle Caracristi
Isabelle tinha 22 anos, cursava Direito e fazia estágio em um escritório de advocacia. Segundo familiares, ela pretendia seguir carreira na área jurídica e tinha interesse em atuar na defesa de crianças e mulheres. Ela havia começado a se relacionar com João Munhoz Neto, de 33 anos, que, segundo a família, era gestor do estágio onde ela trabalhava. O relacionamento começou em julho e evoluiu rapidamente, até Isabelle passar a morar no condomínio com João, o irmão dele e a mãe dele.
O que aconteceu na noite de 13 de setembro
No domingo (13), Isabelle passou parte do dia com a mãe, Isorlanda Caracristi. Segundo o relato da professora, a filha reclamava de dores no pescoço e recebeu dela um relaxante muscular. Mais tarde, Isabelle informou que retornaria ao condomínio para participar de uma missa e de uma procissão com o namorado e familiares dele.
Por volta das 19h, a jovem ainda trocou mensagens com a mãe. Primeiro, falou sobre uma comida que havia deixado na air fryer. Pouco depois, enviou uma mensagem dizendo: “Mãe, eu te amo”. Segundo Isorlanda, Isabelle tinha o hábito de mandar uma mensagem de boa-noite diariamente, o que não aconteceu naquela noite.
A movimentação registrada pelas câmeras
Imagens das câmeras de segurança do Condomínio La Piazza, obtidas e analisadas pelo Diário do Nordeste, ajudaram a estabelecer a cronologia dos acontecimentos. Às 18h32, João aparece na portaria e, logo depois, deixa o edifício acompanhado da mãe. Isabelle permanece no prédio.
Às 19h12, Isabelle é registrada sozinha em um elevador, segurando o celular e seguindo em direção ao rooftop, localizado no 23º andar. O apartamento onde ela morava ficava no 15º andar. Cerca de uma hora e meia depois, por volta das 20h40, ocorre a queda que provoca a morte da estudante. João retorna ao condomínio somente às 22h48, segundo as imagens analisadas pela reportagem.
Até o momento, a Polícia Civil não divulgou a dinâmica da queda nem afirmou oficialmente o que aconteceu entre a chegada de Isabelle ao rooftop e o momento em que ela caiu. Também não há, segundo as informações divulgadas pelas autoridades, conclusão oficial de que tenha ocorrido homicídio ou suicídio.
O momento em que a família descobriu a morte
Na manhã de segunda-feira (14), Isorlanda tentou entrar em contato com a filha várias vezes, mas não conseguiu. A mãe também procurou João, sem obter resposta. Segundo seu relato, ela percebeu que havia sido bloqueada nas redes sociais pelo namorado de Isabelle. Diante da falta de notícias, foi ao condomínio acompanhada de um irmão.
No local, segundo a família e a advogada que acompanha o caso, Isorlanda foi encaminhada à síndica, que informou que Isabelle havia morrido na noite anterior e que o corpo já havia sido levado ao Instituto Médico Legal (IML). A advogada Patrícia Viana afirmou que Isabelle chegou ao IML sem documentos e que, até então, a família não havia sido comunicada diretamente pelo namorado ou pelos familiares dele.
A alegação de que a família não foi comunicada sobre a morte é, portanto, baseada no relato da mãe e da defesa da família. Não há, até o momento, uma conclusão pública das autoridades sobre eventual responsabilidade ou negligência de João ou dos familiares dele na comunicação do óbito.
O que a perícia descobriu
A Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) apontou politraumatismo como causa da morte, com lesões compatíveis com o impacto do corpo contra o solo. Exames laboratoriais não identificaram substâncias de interesse toxicológico. Novos exames e análises continuam sendo realizados para esclarecer as circunstâncias da morte.
Segundo informações divulgadas pelo Diário do Nordeste, não foram identificados sinais de luta corporal dentro do apartamento. Isso, porém, não esclarece o que ocorreu no rooftop ou imediatamente antes da queda. A própria Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) informou que a dinâmica dos fatos somente poderá ser estabelecida após a conclusão dos trabalhos investigativos e periciais.
Polícia faz novas perícias e coleta vestígios
Uma nova etapa da investigação ocorreu neste domingo (20). Equipes da Polícia Civil e da Pefoce retornaram ao condomínio para realizar exames complementares nas áreas comuns e no apartamento onde Isabelle morava. Também foram coletados novos vestígios para análise de DNA e utilizado um drone para obter imagens do local.
O celular de Isabelle também foi localizado e periciado. O conteúdo do aparelho está sendo analisado pela Polícia Civil e deverá ser confrontado com imagens de segurança, depoimentos e demais elementos reunidos no inquérito.
Namorado passa a ser procurado
Ainda no domingo, a Polícia Civil passou a procurar João Munhoz Neto. Ele não foi localizado pelas equipes. A SSPDS não esclareceu publicamente, até a atualização mais recente, se há mandado de prisão contra ele, se a localização tem como objetivo colher depoimento ou se existe outra medida judicial relacionada ao homem. A secretaria também não informou oficialmente que João seja suspeito da morte.
A mãe de João foi localizada pela polícia em uma praia de Cumbuco, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. Contra ela foi cumprido um mandado de busca e apreensão, e um celular e um tablet foram recolhidos para perícia. Segundo a SSPDS, a mulher teria deixado o condomínio com o filho na noite em que Isabelle morreu.
Família aponta possíveis sinais de relacionamento abusivo
A família de Isabelle passou a questionar publicamente o relacionamento da jovem com João. A mãe relatou comportamentos que considerava controladores e afirmou que a filha teria recebido pedidos relacionados ao uso de cartão bancário e à abertura de uma empresa em seu nome. O irmão de Isabelle também relatou ao O POVO que pessoas que conviveram profissionalmente com João teriam descrito comportamentos agressivos no ambiente de trabalho.
Os familiares contestam a possibilidade de suicídio e defendem que as circunstâncias da morte sejam completamente esclarecidas. Essas são posições da família e não representam, até o momento, uma conclusão da Polícia Civil sobre a causa ou a dinâmica da queda.
OAB e Ministério Público acompanham o caso
A repercussão levou instituições cearenses a se manifestarem. A OAB Ceará pediu que a investigação seja conduzida com celeridade, rigor técnico e perspectiva de gênero, ressaltando que essa abordagem não significa antecipar uma conclusão sobre violência, mas garantir que todas as circunstâncias relevantes sejam consideradas.
O Ministério Público do Ceará também informou, no domingo, que acompanha a investigação e mantém interlocução com a Polícia Civil e a Pefoce. O órgão disse ainda que presta apoio à família por meio do Núcleo de Acolhimento às Vítimas de Violência.
Manifestação pede respostas
No domingo (20), um grupo de mulheres realizou um ato em frente ao condomínio onde Isabelle foi encontrada morta. Manifestantes cobraram respostas e celeridade na investigação. A mobilização ocorreu uma semana após a morte da estudante e em meio à divulgação de novas informações sobre as imagens das câmeras e as diligências policiais.
O que ainda falta esclarecer
A investigação ainda precisa esclarecer principalmente o que aconteceu entre a chegada de Isabelle ao rooftop e a queda, por que ela estava sozinha naquele local, quais foram as circunstâncias imediatamente anteriores à morte e o que pode ser extraído dos celulares, das imagens e dos vestígios coletados.
Também permanece sem esclarecimento oficial o motivo pelo qual João Munhoz Neto está sendo procurado pela Polícia Civil e se ele será formalmente considerado suspeito. Até a manhã desta segunda-feira (21), não havia confirmação pública de prisão ou de indiciamento dele.
A Polícia Civil continua ouvindo testemunhas e analisando os elementos reunidos. Quatro pessoas já prestaram depoimento e outras quatro oitivas estavam previstas, segundo a SSPDS. O caso é investigado pela 2ª Delegacia de Polícia Civil da Capital.



