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Culinária paraense não pode ser tratada como ameaça sanitária

Após veto inicial a pratos amazônicos no cardápio da COP30, discussão expõe preconceito estrutural contra a cultura da região e levanta debate sobre sustentabilidade e tradição.

A tentativa de excluir pratos típicos do Pará do cardápio oficial da COP30 expôs, mais uma vez, o preconceito estrutural contra a Amazônia e sua cultura. O argumento sanitário usado no edital não se sustenta quando lembramos que o tucupi, a maniçoba e o açaí são alimentos consumidos diariamente por milhões de pessoas e já estiveram presentes em eventos nacionais e internacionais sem causar problemas.

O que está por trás desse veto não é a preocupação com a saúde pública, mas uma visão que insiste em marginalizar saberes tradicionais. É a mesma lógica que questiona a segurança do que é indígena, ribeirinho ou popular, mas não aplica a mesma régua a pratos industrializados ou importados, que frequentemente apresentam riscos quando mal armazenados.

A reação da sociedade paraense e de apoiadores de todo o Brasil foi legítima e necessária. Ao recuar, a organização da COP30 fez apenas o mínimo: reconhecer que a gastronomia amazônica não é uma ameaça, mas um patrimônio cultural que deve ser valorizado. Retirar o tacacá, o pato no tucupi ou a maniçoba da conferência seria amputar parte da identidade da cidade que sedia o evento.

No fim das contas, essa polêmica escancarou uma verdade: a luta pelo reconhecimento da cultura amazônica vai muito além da culinária. É uma disputa contra estigmas históricos que insistem em tratar a região como periférica, mesmo quando ela está no centro do debate mundial sobre o clima. A COP30 será realizada em Belém, e Belém tem sabor. Ignorar isso seria um erro imperdoável.

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