Sete de Setembro e a Suspensão da Descrença

Por Eduardo Cunha
Podem me chamar de piegas, saudosista ou até de ter um gosto duvidoso. Confesso, sem constrangimento: gosto de comédias românticas.
Sim, eu sei — Fernando Pessoa já nos preveniu que “todas as cartas de amor são ridículas”. Inclusive as dele. Mas sejamos justos: nem só de Nouvelle Vague, Expressionismo Alemão ou Neorrealismo Italiano vive o cinéfilo. Às vezes, o coração pede algo mais leve, ainda que com um enredo aparentemente improvável.
Pois bem, numa dessas madrugadas insones, zapeando pelos canais da TV, dei de cara com um desses filmes antigos em que a Sandra Bullock faz o papel da mocinha encantadora. O par romântico dela acordava de um coma, confuso, tentando entender que mundo era aquele em que despertara. E foi aí que me veio à cabeça um conceito clássico da ficção: a suspensão da descrença.
Suspensão da descrença é aquele pacto tácito entre obra e público, em que topamos, sem reclamar, a existência de dragões, fadas, vampiros, super-heróis… ou de um roteiro improvável, como alguém se apaixonar por quem está inconsciente. Nesse sentido, a suspensão da descrença poderia ser vista como algo semelhante à licença poética, liberdade que o autor tem para desviar-se das regras gramaticais, ortográficas ou de métrica com o objetivo de expressar-se artisticamente. A diferente é que esta nasce do autor, enquanto aquela é a disposição do espectador ou leitor de aceitar como verossímeis situações improváveis ou fantásticas, sem deixar que isso quebre o encanto da obra
Mas resolvi ir além: fiz um exercício de imaginação e me coloquei no lugar do personagem. Acordei de um coma, aqui no Brasil, em pleno 2025.
A primeira notícia no jornal já me soou esquisita: políticos progressistas articulando o endurecimento das leis contra a pedofilia. Uai? E toda aquela discussão sobre censura, arte queer e o Queermuseu em Porto Alegre? Não era esse o mesmo campo ideológico que, naquela ocasião, defendia a liberdade artística?
Continuei lendo. Lula — sim, o Lula — liberando um pacote bilionário para o agronegócio. E mais: seu ministro de Minas e Energia defendendo abertamente a criação de uma bomba nuclear brasileira.
Pera lá! Será que Lula virou Olavo de Carvalho e Alexandre Silveira agora é o novo Enéas? Mas que delírio é esse?
O auge do surrealismo, porém, foi uma manifestação de 7 de Setembro, mostrada na reportagem. Todos vestidos de verde e amarelo, bandeiras do Brasil ao vento — o cenário típico. Mas, em vez de gritarem “Bolsonaro Livre”, ” fora Alexandre de Moraes”, bradavam “Lula!” e entoavam palavras de ordem como “sem anistia”.
Ali, pensei de verdade que estava preso em algum devaneio psicodélico — algo entre as Viagens de Gulliver e Alice no País das Maravilhas. Só que não. Era real.
Esqueci a Sandra Bullock, o coma e a comédia romântica. Comecei a me perguntar, sinceramente: será que ainda faz sentido falar em “suspensão da descrença”? Ou foi a realidade que passou a competir com a ficção em inverossimilhança?
Fiquei com a segunda opção. E finalmente peguei no sono.



