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Por que na visão sudestina, somente a pobreza prevalece no imaginário sobre o Norte e Nordeste?

Quando o Sudeste olha para o Norte, costuma enxergar uma de duas coisas: uma floresta sem gente ou uma gente sem estrutura. Nas duas versões a cidade desaparece, e com ela o cotidiano de quem mora em Belém ou Manaus, que almoça no domingo em família, estuda à noite, anda por ruas arborizadas e vai à feira. Esse Norte urbano, comum e complexo quase nunca chega ao resto do país.

A comparação com o Rio de Janeiro ajuda a ver o tamanho da diferença. O Rio tem, sim, uma longa tradição de romantizar a favela, mas essa imagem convive com Ipanema, o Arpoador, o calçadão e o estilo de vida da zona sul. A favela aparece como um contraste dentro de uma cidade que também é mostrada bonita, rica e cotidiana. O Norte não tem uma zona sul no imaginário nacional. Belém tem o Ver-o-Peso, o Theatro da Paz e suas mangueiras, e Manaus tem o Teatro Amazonas, mas nenhum desses cenários vira o enquadramento padrão da região.

A raiz disso é antiga. Neide Gondim, em A Invenção da Amazônia, mostra que a região foi descrita primeiro por viajantes que já chegavam com lendas na cabeça, e o resultado foi uma Amazônia construída pelo discurso, oscilando entre Eldorado e inferno verde. Esse molde nunca foi quebrado de verdade. Uma pesquisa feita com 80 pessoas em Manaus, Belém e outras cidades (Bueno, 2008) encontrou “floresta”, “mata” e “selva” como respostas mais frequentes sobre o que é a Amazônia. Outro estudo, com entrevistas em São Paulo, Manaus e Belém, chega à mesma conclusão: a representação da região se organiza em torno da natureza. A floresta virou a definição da Amazônia, e quem define pela floresta não precisa olhar para a cidade.

Isso tem um efeito curioso, apontado em trabalhos apresentados no encontro da ANPUR: a centralidade ambiental produz uma invisibilidade urbana. A região é majoritariamente urbana, com cerca de 70% da população vivendo em cidades, e a história urbana dela não é recente. Belém e Manaus viveram a belle époque da borracha, com telégrafo, eletricidade, teatros e salas de cinema. Um país que sabe disso não olharia para elas como um acampamento na mata, mas esse conhecimento não circula.

Por que então o que sobressai é sempre o lado difícil? Em parte, por quem narra. Norte e Nordeste concentram os chamados desertos de notícias, regiões onde não existe cobertura jornalística local, e boa parte do que se publica sobre a Amazônia é feita por jornalistas de fora. Pesquisadoras ouvidas pela rede ICFJ reclamam que as fontes costumam vir de universidades de fora da região, como se as do Norte não fossem boas o bastante. A fundadora da Amazônia Real, Kátia Brasil, resume o problema dizendo que se fala da Amazônia com muita mitologia e folclore. O livro À sombra da floresta, que analisa o jornalismo sudestino sobre a Amazônia, lista os mesmos clichês: solidão, vazio, perigo, salvação. Quem escreve de longe só tem a distância para mostrar.

Aqui vale pensar com Durval Muniz de Albuquerque Júnior. Ele estudou o Nordeste, e o conceito é meu empréstimo para o Norte: o estereótipo não é só um olhar errado, é um olhar produtivo, que constrói a região e tem efeitos reais sobre ela. Eu acrescento que cada versão do estereótipo serve a um uso. A imagem de miséria convida à assistência, a imagem de floresta intocada convida à tutela, e nas duas a decisão fica com quem está de fora, enquanto o Norte aparece como objeto de cuidado e nunca como sujeito.

Nada disso significa esconder os problemas. A pobreza existe, a precariedade de serviços existe, e negar isso seria outro tipo de romantização. O que se reivindica é que o Norte tenha direito à mesma complexidade que o Rio recebe sem esforço: ser bonito e desigual ao mesmo tempo, ter periferia e ter orla, ter crise e ter vida comum. Enquanto o resto do país só consegue ver o Norte como mata ou como carência, a região continuará sendo mais falada do que ouvida.

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