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Palacete Bibi Costa corre o risco de desabar, diz O GLOBO

As histórias de assombração do Palacete Bibi Costa, em Belém, viralizaram nas redes sociais e ganharam a atenção de alguns dos maiores portais de notícias do Brasil. No jornal O GLOBO deste domingo, tanto na versão impressa como em seu portal, uma vasta matéria sobre o palacete ganhou uma página para falar das assombrações e do descaso que se encontra o patrimônio histórico. E faz um alerta: a edificação corre o risco de desabar.

O imponente Bibi tem aspecto arrepiante. Fachada arruinada pelo tempo e interior rejeitado, tanto pelo poder público quanto pela iniciativa privada, que se recusam a ocupá-lo após inúmeros relatos de assombrações. Um laudo técnico a que O GLOBO teve acesso aponta risco de colapso. A reportagem conseguiu entrar no prédio e pôde ver que o piso de madeira acapu e pau-amarelo está deteriorado, e os lustres de cristais franceses, corroídos pela oxidação. Sem cuidados, as escadarias de madeira rangem, e no terceiro pavimento, parte do forro do teto desabou. Os vitrais estão quebrados, e o sótão virou moradia de morcegos.

A professora Andreza Vieira, que trabalhou no prédio em 1999, na então Secretaria de Planejamento do Pará, diz que sua mesa ficava no setor de informática, exatamente onde no passado ficava o calabouço. Há duas semanas, ela voltou ao antigo endereço e lembrou que, certa vez, ao ficar sozinha após o expediente, ouviu, por volta das 22h, as portas do porão se fecharem. O vigia estava longe, do lado de fora.

— Eu saí correndo — lembra ela, que chegou a ter pesadelos com pessoas acorrentadas tentando alertá-la sobre um perigo iminente no palacete.

No ano seguinte, houve um incêndio. Andreza pediu demissão e nunca mais pisou na antiga casa senhorial. Uma série de mortes misteriosas ronda o Bibi, visto como amaldiçoado. Em 1974, Apolinário, ex-funcionário do extinto Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis, teria ouvido súplicas vindas do porão, onde funcionava a cozinha do órgão. Apolinário se encorajou e foi até lá. Deparou-se com um homem com cicatrizes de escarificação, queimaduras a ferro quente e com as pernas presas a pedaços de correntes enferrujadas. Pedia para ser libertado.

Apolinário saiu tão desnorteado dali que foi atropelado por um ônibus. Tudo isso teria sido contado pelo próprio a amigos e parentes no hospital, antes de morrer semanas depois, vítima de traumatismo craniano.

Das duas fachadas, a mais nobre é voltada para a Avenida Governador José Malcher, 1.044, no bairro de Nazaré, por onde chegavam os convivas de bailes e saraus. Ainda é possível visualizar as belezas de outrora nas torres, nas balaustradas das varandas e no telhado com beirais de mãos francesas delicadamente esculpidas. Na entrada, há uma escultura de bronze de uma ninfa.

Elevador anda sozinho

Atualmente, o funéreo de ilustres frequentadores embaça o esplendor e afugenta a população. Aos 54 anos, o então secretário de Planejamento do Pará, Amílcar Alves Tupiassú, liderava uma equipe de 100 pessoas no principal gabinete do Palacete Bibi e, logo no primeiro ano da gestão, era bombardeado por queixas de funcionários assustados. O elevador dispararia sem ser acionado. Mesmo sem dar muito crédito, ele desligou o maquinário e pôs um móvel na porta do equipamento. À noite, o elevador deu sinal de vida, destruiu o obstáculo de madeira e seguiu rumo ao porão. “Aos costumes”, dizem os que presenciaram o fenômeno. Em 5 de novembro de 1989, Tupiassú sofreu um ataque cardíaco e morreu na sala de casa.

No ano passado, Fernando Sampaio, sobrinho de Tupiassú, viralizou nas redes sociais replicando as lembranças da própria avó sobre o endereço que teria matado o tio e outros dois secretários de estado. A matriarca, até morrer, “falava e jurava, entre lágrimas, para todo mundo ouvir, que os espíritos do Palacete Bibi tinham matado o filho dela”.

A paranormal Joana Dilma Santana de Acácio, de 67 anos, perdeu dois amigos que davam expediente no palacete na década de 1980. Ela conta que ambos falavam de visagens — alma penada, em bom “paraês” — e tiveram mortes misteriosas. Um se matou e o outro teve um AVC repentino. A reportagem acompanhou Joana com um kit de radiestesia — uma vareta com um pêndulo na ponta — para medir a atmosfera espiritual de lá:

— É uma vibração pesada. Senti algo tão forte que quase desmaiei — diz Joana.

A destruição do Palace Bibi Costa está descrita com detalhes, no plano real, em um relatório da Secretaria de Coordenação e Governança do Patrimônio da União, de junho do ano passado. O espólio de almas penadas torna sombrio o futuro de uma das obras mais relevantes da arquitetura paraense, ao lado do Mercado Ver-o-Peso e do grandioso Teatro da Paz. Ninguém quer morar ou ocupar o Bibi. Com valor venal estimado em R$ 2,5 milhões, o prédio é isento de IPTU e tem como única despesa R$ 20 mil mensais com vigilância. Os investimentos em manutenção são nulos.

— Não acredito que o local seja mal-assombrado. Nunca recebemos queixa — garante Carlos Libonati Machado, superintendente do Patrimônio da União no Pará.

O prédio foi construído pelo engenheiro Francisco Bolonha a pedido do major Carlos Brício da Costa, figurão da alta sociedade paraense conhecido como Bibi Costa. A família chegou a hospedar o presidente da República Afonso Pena, que, da sacada, fez um discurso histórico. Tanto o presidente quanto o major morreram em 1909, três anos após a inauguração do Bibi. Tombado em 1996 pelo governo do Pará, abrigou a última repartição nos anos 1980, a Administração Hidroviária da Amazônia Oriental. Na pressa, ao saírem, os funcionários deixaram para trás caixas de contratos.

A Secretaria de Cultura do Pará negocia com a União para transformar o bem tombado em museu ou biblioteca. As tratativas ficaram travadas na gestão de Jair Bolsonaro.

Com informações O GLOBO

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