HISTÓRICO: Cientistas da UFPA sequenciam pela primeira vez o genoma do açaí e abrem nova era para a bioeconomia amazônica
Pesquisa inédita desenvolvida em parceria com a Embrapa permitirá acelerar o melhoramento genético da espécie, ampliar a produtividade, fortalecer o cultivo sustentável e impulsionar novas aplicações para as indústrias farmacêutica, alimentícia e cosmética.
O açaí, um dos maiores símbolos da Amazônia e um dos principais produtos da bioeconomia brasileira, acaba de alcançar um marco histórico na ciência. Pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), em parceria com a Embrapa Amazônia Oriental, realizaram pela primeira vez o sequenciamento completo do genoma do açaizeiro (Euterpe oleracea Mart.), revelando o código genético da espécie responsável por movimentar bilhões de reais todos os anos e gerar renda para milhares de famílias amazônicas.
A conquista representa um divisor de águas para a pesquisa agrícola nacional. Com o conhecimento detalhado do DNA da planta, cientistas poderão acelerar significativamente os programas de melhoramento genético, desenvolver variedades mais produtivas, resistentes e adaptadas às mudanças climáticas, além de ampliar o potencial econômico do fruto mais emblemático da região Norte.
Os resultados da pesquisa foram publicados no artigo científico The genome sequence of the açaí berry (Euterpe oleracea Mart.) and RNA-Seq analysis of the fruit ripening, na revista internacional Genome.
Ciência produzida na Amazônia
O estudo nasceu da união entre duas das principais instituições de pesquisa da região.
A Embrapa Amazônia Oriental foi responsável por selecionar as plantas utilizadas na pesquisa a partir de seu banco genético, fornecendo amostras da cultivar BRS Pai d’Égua, além de frutos de variedades roxa e branca do açaí.
Já o Laboratório de Engenharia Biológica (EngBio), da Universidade Federal do Pará, instalado no Parque de Ciência e Tecnologia Guamá, em Belém, realizou a extração do DNA, o sequenciamento genético e toda a montagem do genoma utilizando ferramentas avançadas de bioinformática.
O trabalho também contou com financiamento da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Melhoramento genético poderá ser até três vezes mais rápido
Até hoje, desenvolver uma nova variedade de açaí exigia décadas de pesquisas em campo.
Como a planta leva aproximadamente seis anos para começar a produzir frutos, os pesquisadores precisavam esperar todo esse período apenas para descobrir se determinada muda apresentava características desejáveis, como maior produtividade ou melhor qualidade dos frutos.
Com o sequenciamento do genoma, esse cenário muda completamente.
Agora será possível identificar, ainda no laboratório, os genes responsáveis por características importantes da planta, reduzindo drasticamente o tempo necessário para selecionar indivíduos superiores.
Segundo a pesquisadora Maria do Socorro Padilha, da Embrapa Amazônia Oriental, esse conhecimento teria reduzido em até três vezes o tempo necessário para desenvolver a primeira cultivar comercial da espécie.
A cultivar BRS Pará, lançada em 2005, levou cerca de 24 anos para ser desenvolvida. Com as ferramentas genômicas disponíveis atualmente, esse processo poderia ser concluído em aproximadamente oito anos.
Produção maior, mais saudável e resistente
Entre as principais aplicações práticas do sequenciamento está a identificação dos genes relacionados à produtividade, resistência a doenças e produção de compostos naturais.
Embora atualmente o açaizeiro não enfrente uma doença de grande impacto econômico, os pesquisadores destacam que conhecer previamente os genes ligados à resistência permitirá respostas muito mais rápidas caso novas enfermidades surjam no futuro.
Também será possível selecionar plantas que produzam maior quantidade de antocianinas — pigmentos naturais responsáveis pela coloração roxa do fruto e conhecidos por sua elevada capacidade antioxidante.
Essas substâncias despertam grande interesse das indústrias alimentícia, farmacêutica e cosmética devido aos seus potenciais benefícios à saúde.
Mistério do açaí branco é explicado
Outro resultado importante da pesquisa foi esclarecer por que algumas variedades produzem frutos verdes, popularmente conhecidos como “açaí branco”.
A comparação genética entre plantas de frutos roxos e verdes revelou que a diferença está na ativação de uma enzima responsável pela produção das antocianinas.
Nas variedades roxas, esse mecanismo funciona normalmente, produzindo os pigmentos responsáveis pela coloração característica.
Já no açaí branco ocorre uma inibição dos genes que iniciam esse processo, impedindo a formação dos pigmentos.
Além de explicar uma curiosidade genética, essa descoberta poderá auxiliar no desenvolvimento de novas variedades com características específicas para diferentes mercados.
Cultivo sustentável ganha novo impulso
O sequenciamento também fortalece outra importante frente de pesquisa: o desenvolvimento de variedades adaptadas ao cultivo em terra firme.
Originalmente, o açaizeiro cresce em áreas de várzea, que permanecem parcialmente alagadas durante parte do ano.
Entretanto, a expansão da cultura tem ocorrido principalmente em áreas de terra firme, exigindo plantas capazes de manter alta produtividade em condições diferentes das encontradas naturalmente.
Esse trabalho vem sendo desenvolvido há décadas pela Embrapa, que já lançou cultivares adaptadas a esse sistema produtivo.
Entre elas está a BRS Pai d’Égua, utilizada no próprio sequenciamento genético.
Recuperação de áreas degradadas
O avanço científico também reforça o papel do açaí como aliado da recuperação ambiental.
Pesquisadores destacam que a cultura pode ser utilizada em sistemas agroflorestais, contribuindo para restaurar áreas degradadas, aumentar a cobertura vegetal e gerar renda ao produtor rural.
A possibilidade de selecionar plantas mais adaptadas a diferentes ambientes amplia ainda mais esse potencial.
Novas aplicações para a indústria
Além da agricultura, o conhecimento do genoma abre caminho para pesquisas em biotecnologia.
Segundo o professor Rafael Baraúna, da UFPA, os genes responsáveis pela produção de compostos de interesse poderão futuramente ser utilizados em processos de engenharia biológica.
Isso significa que microrganismos como bactérias e leveduras poderão ser modificados para produzir em laboratório substâncias presentes naturalmente no açaí, como antioxidantes e corantes naturais.
Essa tecnologia reduz a necessidade de exploração direta da planta e permite produção em larga escala de compostos utilizados pelas indústrias farmacêutica, cosmética e alimentícia.
Quatro décadas de pesquisas
O trabalho de melhoramento genético do açaí desenvolvido pela Embrapa começou ainda na década de 1990.
Em 2005 foi lançada a cultivar BRS Pará, voltada ao aumento da produtividade.
Já em 2019 chegou a cultivar BRS Pai d’Égua, desenvolvida para manter produção mais equilibrada durante o ano quando cultivada com irrigação, reduzindo os efeitos da entressafra.
Atualmente, novos estudos seguem em andamento por meio do projeto Melhoraçaí, que busca selecionar plantas ainda mais produtivas tanto da espécie tradicional do Pará quanto do chamado açaí-solteiro, predominante em estados como Acre e Roraima.
Com o primeiro sequenciamento completo do genoma do açaizeiro, a Amazônia passa a ocupar posição de destaque na pesquisa genética mundial sobre espécies tropicais. A conquista fortalece a ciência produzida na região, amplia as perspectivas para a bioeconomia amazônica e cria bases para uma agricultura mais produtiva, sustentável e tecnologicamente avançada.



