Fogo irmão: como Eduardo Bolsonaro acaba fortalecendo seus adversários
Por Eduardo Cunha
Se é verdade que Jair Bolsonaro chegou à Presidência como um foguete impulsionado pelo antipetismo, também é fato que Luiz Inácio Lula da Silva só conseguiu anular seus processos, deixar a prisão e retornar ao poder embalado pelo anti-bolsonarismo. Um alimentou o outro. Dois polos que se enfrentam, mas que dependem mutuamente para sobreviver. Dinossauros políticos que se retroalimentam.
É a conhecida teoria da ferradura: quanto mais os extremos se tensionam, quanto mais falam apenas para suas bolhas, mais se aproximam na prática. Mudam os discursos, preserva-se a lógica. A lógica da exclusão, do “nós contra eles”, do permanente estado de guerra eleitoral.
O problema é que bolhas não vencem eleições sozinhas — e, quando vencem, governam mal. Bolhas produzem aplausos, não consenso. E um país governado apenas para convertidos mergulha na paralisia e na ingovernabilidade. Um presidente precisa governar para a nação, não para a própria torcida.
Nesse contexto, o senador Flávio Bolsonaro tem ensaiado um movimento curioso. Para quem carrega o sobrenome e pertence ao núcleo duro do bolsonarismo, sua postura mais aberta ao diálogo surpreende. Tem buscado falar com um eleitorado que não se define por rótulos ideológicos, mas por demandas concretas — aquele brasileiro que está menos preocupado com o espectro político e mais atento ao que afeta o próprio bolso.
Afinal, política é, antes de tudo, a arte do diálogo — sobretudo com quem pensa diferente. Basta recordar o contraste entre o sindicalista combativo da campanha de 1989 e o Lula moderado que venceu em 2002. A sobrevivência política costuma exigir menos trincheira e mais pontes.
Não por acaso, Flávio tem suavizado o discurso mais agressivo associado ao clã e buscado ampliar sua interlocução. Pode ser estratégia, pode ser maturidade política. De toda forma, é movimento. E movimento, em política, nunca é trivial.
Recentemente, provocou reações ao pedir votos, em suas redes sociais, a “todas, todos, todes, todys e todXs” — gesto simbólico que deixou setores da esquerda em polvorosa. Para alguns, oportunismo. Para outros, pragmatismo eleitoral.
No entanto, em política — como nas guerras — o pior inimigo nem sempre está do outro lado da trincheira. Às vezes, ele veste a mesma camisa. É o chamado “fogo amigo”. Neste caso, talvez fosse mais adequado dizer: fogo irmão.
Todo o esforço de desconstrução de rótulos ensaiado por Flávio Bolsonaro encontra resistência dentro da própria família. E essa resistência atende pelo nome de Eduardo Bolsonaro.
O temperamento explosivo do deputado não é novidade. Ficou marcada sua declaração de que bastaria “um cabo e um soldado” para fechar o Supremo Tribunal Federal, frase que ultrapassou a retórica e se transformou em símbolo de radicalização. Para parte da militância, soou como bravura. Para além da bolha, soou como imprudência.
Há uma diferença entre firmeza e arroubo. A primeira constrói; o segundo, frequentemente, isola. Em um momento em que o sobrenome Bolsonaro tenta ampliar seu raio de diálogo, discursos incendiários funcionam como âncora, não como vela.Nem é preciso relembrar comemorações públicas relacionadas a decisões de Trump tarifando produtos brasileiros.
Se fosse um drama cinematográfico, a família poderia ser comparada aos Corleone. Eduardo ocuparia o papel do intempestivo Sonny; Flávio, o do pragmático Michael, mais afeito ao cálculo do que ao confronto aberto. Em política, porém, não há roteiro fechado — apenas consequências.
Em seu autoexílio, Eduardo tem adotado postura combativa não apenas contra adversários, mas também contra aliados. Cobrou publicamente figuras como o governador Tarcísio de Freitas e o deputado Nikolas Ferreira, ambos alinhados ao bolsonarismo, mas adeptos de uma retórica menos inflamável. A divergência não é ideológica; é de método.
O episódio mais recente envolveu críticas à própria madrasta, Michelle Bolsonaro, por suposta falta de engajamento como ele considerava adequado. A tensão escalou a tal ponto que o próprio Jair Bolsonaro precisou intervir por meio de carta pública, pedindo pacificação entre apoiadores — sem citar nomes, mas com destinatários evidentes.
Se a direita pretende, de fato, crescer e voltar ao poder, terá de substituir o fígado pelo cérebro. Política não se faz apenas com indignação; faz-se com estratégia. Não basta falar para os seus — é preciso dialogar com todos, com todas, com todes, com quem quer que esteja disposto a ouvir.
Quem deseja governar precisa antes aprender a ampliar. E ampliar exige cálculo, serenidade e capacidade de absorver diferenças.
No roteiro dessa disputa, talvez a direita precise de menos impulsividade e mais pragmatismo. Menos ferraduras e polarizações. Em outras palavras: menos o irmão Sonny, e mais Michael.



