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Disputa entre Belém e Recife pelo título de capital do brega mobiliza Congresso Nacional

Projeto aprovado no Senado reconhece Recife como Capital Nacional do Brega, mas reação de parlamentares paraenses reaquece embate histórico sobre a origem do gênero; especialistas apontam que tanto Pernambuco quanto Pará têm trajetórias legítimas e únicas

A rivalidade cultural entre Belém e Recife pela paternidade do brega ganhou repercussão nacional nos últimos dias, após a aprovação de um projeto de lei no Senado Federal que reconhece Recife como a Capital Nacional do Brega. A medida provocou reação imediata do senador paraense Beto Faro (PT), que entrou com recurso para que a matéria seja debatida em plenário antes de seguir à sanção presidencial.

O embate extrapolou as redes sociais e os palcos musicais, e chegou aos corredores do Congresso Nacional. Para Beto Faro, a história de Belém com o brega é profunda e inegável. Ele lembra que o Pará construiu um estilo próprio que funde elementos da guitarrada, do carimbó, do bolero e da lambada. “Belém tem uma trajetória histórica no desenvolvimento desse gênero musical”, afirmou.

Do outro lado, o senador pernambucano Humberto Costa (PT), relator do projeto, destacou o papel cultural e econômico que o brega representa para Recife. Ele relembrou o legado do cantor Reginaldo Rossi, símbolo máximo do gênero na capital pernambucana, e ressaltou a força política do brega como resistência durante a ditadura militar. “Odair José foi o cantor mais censurado pela ditadura. O brega falava para uma população que muitas vezes não era ouvida”, pontuou.

Do chifre ao technobrega

O brega é um dos gêneros mais populares do Brasil, conhecido por seu romantismo exagerado, suas letras sobre dor de amor e sua ligação com as classes populares. Surgido como uma vertente mais sentimental da Jovem Guarda, o estilo se espalhou pelo país a partir da década de 1960, com variações e desdobramentos regionais. Em Recife, a música ganhou ares seresteiros e mais recentemente se transformou no bregafunk, estilo dançante e acelerado que domina festas e o Carnaval da capital.

Já em Belém, o brega floresceu nas periferias com as aparelhagens – verdadeiros palcos sobre rodas com iluminação e som potentes –, e se tornou sinônimo de identidade cultural. A cidade viu nascer o tecnobrega, uma fusão de brega com beats eletrônicos e influências caribenhas, que levou artistas como Gaby Amarantos ao reconhecimento internacional, culminando com o Grammy Latino de 2023 pelo álbum Tecnhoshow.

Especialistas: uma capital só não basta

Pesquisadores e estudiosos da música popular defendem que a tentativa de definir uma única capital para o brega ignora a complexidade e a pluralidade do gênero. Thiago Soares, professor da Universidade Federal de Pernambuco e autor de um livro sobre o tema, destaca que o brega é um “conglomerado” de estilos e cenas, que se manifestam de formas distintas em diversas regiões do país. “Certamente as duas cidades são a capital do brega. Essa disputa é mais política do que cultural”, afirma.

A mesma opinião é compartilhada por Gabriel GG Albuquerque e Yuri da BS, pesquisadores que apontam que o termo “brega” foi aplicado posteriormente a diferentes movimentos musicais que já existiam nas décadas de 60 e 70. Eles lembram que Reginaldo Rossi, em Recife, e Wandereley Andrade, em Belém, foram figuras centrais na popularização do gênero — ambos com origens no rock e no pop, adaptados ao gosto popular de suas regiões.

Brega nas ruas, palcos e urnas

Em Recife, o brega se tornou uma ferramenta política. O prefeito João Campos (PSB) tem usado o bregafunk como trilha sonora de suas campanhas e aparições públicas. No Carnaval, ele já subiu ao palco com óculos juliette e cabelo descolorido, adotando o visual característico do estilo. Seu irmão, o deputado federal Pedro Campos (PSB), foi o autor da lei que criou o Dia Nacional do Brega, celebrado em 14 de fevereiro, data de nascimento de Reginaldo Rossi.

Belém, por sua vez, reforça a legitimidade de sua relação com o gênero nas festas de aparelhagem, no Festival Psica — que sempre dedica espaço ao brega — e na lealdade de seu público a artistas das décadas de 80 e 90. “Se não tiver no repertório o brega antigo, você não se dá bem em um show aqui”, afirma Rondy Dias, da banda Voo Livre, referência do tecnobrega paraense.

Rumo ao reconhecimento mútuo?

A proposta paraense é que o título de capital do brega seja concedido a ambas as cidades, reconhecendo a contribuição singular de cada uma. A expectativa agora é por um possível consenso no Congresso. Para os estudiosos e para o público, o mais importante é que o brega, por muito tempo marginalizado, finalmente esteja no centro do debate cultural nacional.

Como canta Gaby Amarantos, “o brega sou eu, é você, é o Brasil inteiro”. E talvez essa seja a melhor resposta para uma polêmica em que todos, no fundo, já saíram ganhando.

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