Daniel declara R$ 4,7 milhões ao TSE; patrimônio é incompatível com bens investigados
Candidato ao Governo do Pará reduziu em cerca de 2% o patrimônio informado à Justiça Eleitoral em relação a 2024; investigações e levantamentos anteriores apontaram bens milionários que não aparecem na declaração pessoal

O candidato do Podemos ao Governo do Pará, Dr Daniel Santos, declarou R$ 4,7 milhões em bens à Justiça Eleitoral para disputar as eleições de 2026. O valor é cerca de 2% inferior aos R$ 4,849 milhões informados por ele em 2024. A nova declaração chama atenção diante de investigações e levantamentos anteriores que apontaram um patrimônio muito superior associado ao político, incluindo fazendas, aeronaves, rebanho, cavalos de raça, relógios de luxo e uma mansão no Ceará.
Em 2024, o jornal O Liberal revelou que pelo menos cinco fazendas em Tomé-Açu, no nordeste do Pará, somavam cerca de 1.800 hectares e estavam registradas em nome de Daniel, da esposa dele, Alessandra Haber, e da mãe, Deuseny Barbosa Santos. O levantamento também identificou dois jatinhos vinculados à Agropecuária JD, empresa da qual Daniel é sócio-administrador. Esses bens não apareciam na declaração pessoal apresentada pelo então prefeito ao TSE.
Além das propriedades, investigações indicavam que a fazenda da Agropecuária JD tinha 4.200 hectares de área de pasto e 4.869 cabeças de gado em 2022. Reportagens também apontaram a aquisição de cavalos de raça pela empresa. A Agropecuária JD, por sua vez, foi declarada por Daniel à Justiça Eleitoral pelo valor de R$ 100 mil, correspondente ao capital social informado.
Outro ponto que ampliou a diferença entre o patrimônio declarado e os bens atribuídos ao candidato surgiu com a Operação Hades, deflagrada pelo Ministério Público do Pará em agosto de 2025. Na ocasião, a Justiça determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 500 milhões em bens de 16 pessoas físicas e jurídicas investigadas, sendo R$ 140 milhões atribuídos a Daniel Santos, segundo informações divulgadas pelo Gaeco. A investigação apura suspeitas de corrupção, fraude em licitações, lavagem de dinheiro e outros crimes.
Uma das propriedades investigadas é uma fazenda de 3.800 hectares em Tomé-Açu, apontada pelo Ministério Público como adquirida por cerca de R$ 16 milhões. Também aparecem nas investigações uma fazenda em Aurora do Pará, avaliada em aproximadamente R$ 1,4 milhão, além de aeronaves e outros bens. Segundo o MPPA, parte desses ativos teria sido adquirida mediante recursos provenientes de empresas que mantinham contratos com a Prefeitura de Ananindeua, acusações que ainda são objeto de investigação e contestação pela defesa.
A mansão no litoral do Ceará se tornou o caso mais conhecido nacionalmente. Avaliado em cerca de R$ 4 milhões, o imóvel foi alvo de reportagem do Fantástico, da TV Globo, em março de 2026. O Ministério Público investiga a origem dos recursos utilizados na compra. Posteriormente, Daniel admitiu ter participado da aquisição e afirmou que o imóvel foi comprado por meio de uma “compra compartilhada entre amigos”.
Também foram apreendidos relógios de luxo avaliados entre R$ 2,5 milhões e R$ 3 milhões, segundo informações divulgadas sobre a Operação Hades. O conjunto de bens investigados inclui ainda aeronaves e propriedades rurais que não aparecem individualmente na declaração pessoal apresentada por Daniel ao TSE. A diferença não significa, por si só, que todos esses bens deveriam necessariamente constar no CPF do candidato, já que parte deles aparece vinculada a empresas ou familiares; a questão central é justamente a relação de Daniel com esses ativos, que vem sendo examinada pelas autoridades.
Com a nova declaração de R$ 4,7 milhões, a discrepância volta ao centro do debate eleitoral. Em 2024, levantamento publicado pelo Diário do Pará estimou em pelo menos R$ 79,8 milhões o conjunto de bens declarados e outros ativos atribuídos a Daniel naquele momento, embora parte dos valores fosse estimativa jornalística e parte estivesse sob investigação. Em 2026, o mesmo veículo passou a estimar que o patrimônio associado ao político poderia superar R$ 100 milhões.
Os registros apresentados à Justiça Eleitoral, contudo, devem ser diferenciados dos bens que aparecem em investigações, empresas ou nomes de terceiros. A declaração de 2026 informa, entre outros itens, propriedades rurais, imóveis, veículos, participação empresarial e R$ 112 mil em dinheiro em espécie, enquanto as aplicações de renda fixa que somavam cerca de R$ 100,8 mil em 2024 deixaram de aparecer na nova relação.
Os bens que aparecem na declaração de 2026 são:
- R$ 112.000,00 em dinheiro em espécie;
- R$ 170.000,00 em terreno;
- R$ 240.000,00 em veículo;
- R$ 100.000,00 em quotas de empresa agropecuária;
- R$ 350.000,00 em propriedade rural;
- R$ 1.000.000,00 em propriedade rural;
- R$ 138.710,96 em terreno;
- R$ 1.800.000,00 em propriedade rural;
- R$ 692.049,84 em casa;
- R$ 151.000,00 em veículo.
A soma fecha os R$ 4.753.760,80 declarados.
A candidatura de Daniel ainda está dentro do prazo legal para registro, que termina às 19h de 15 de agosto, segundo o calendário eleitoral citado pelo TSE.



