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Mairi não era o nome indígena original de Belém, aponta pesquisa da UFPA

Estudo revisita 35 obras e questiona a interpretação de que os Tupinambá usavam “Mairi” para identificar o território onde hoje está Belém antes da chegada dos portugueses

A palavra “Mairi” passou a aparecer com frequência em Belém desde 2019, associada a eventos, cursos, exposições, músicas, campanhas publicitárias e estabelecimentos comerciais. A utilização do termo costuma estar acompanhada da ideia de que os Tupinambá já chamavam de Mairi o território onde atualmente está o centro histórico da capital paraense antes da chegada dos portugueses. Uma pesquisa recente do historiador Márcio Couto Henrique, da Universidade Federal do Pará (UFPA), questiona essa interpretação a partir da análise das fontes históricas utilizadas para sustentá-la.

A origem da narrativa está em um capítulo publicado em 2019 pelo historiador Aldrin Moura de Figueiredo. Na publicação, ele afirmou que os Tupinambá utilizavam Mairi para denominar o local onde posteriormente seria fundada Belém. Para sustentar a afirmação, foram citados trabalhos do antropólogo Manuel Nunes Pereira, do conde italiano Ermanno Stradelli e do médico Alfredo Augusto da Matta.

Ao revisitar essas referências, porém, Márcio Couto Henrique identificou diferenças entre o que os documentos efetivamente registram e a interpretação atribuída a eles. No caso de Manuel Nunes Pereira, por exemplo, o termo Mairi aparece relacionado à forma como indígenas do rio Negro chamavam Belém durante o período colonial. A própria referência utilizada pelo autor também relaciona a palavra a cidades e povoações fundadas por franceses depois da conquista.

Stradelli, por sua vez, registra Mairi como sinônimo de cidade, mas não apresenta o termo como uma antiga denominação específica de Belém. Segundo a pesquisa, as três fontes citadas para sustentar a ideia de uma Belém pré-colonial chamada Mairi não apresentam essa informação da maneira como ela passou a ser reproduzida.

O que significa Mairi?

A investigação foi ampliada para além dessas referências. Henrique consultou 35 obras, entre dicionários de línguas indígenas e relatos de viajantes produzidos entre os séculos XVI e XX. Segundo a pesquisa, Mairi e suas variantes aparecem nesses registros principalmente com o significado de cidade ou povoação.

A origem do termo aparece em relatos do século XVI, incluindo os escritos do frade francês André Thevet. Conforme essa documentação, os Tupinambá associaram os primeiros franceses que chegaram ao território brasileiro aos seus antigos caraíbas, figuras relacionadas a profetas e personagens dotados de poderes extraordinários.

Nesse contexto, os franceses passaram a ser chamados de Mair, enquanto os espaços ocupados ou frequentados por eles eram identificados como Mairi. A interpretação apresentada pela pesquisa é que o termo surgiu, portanto, no contexto do contato entre indígenas e europeus e passou a ser utilizado de maneira genérica para designar cidades ou povoações associadas aos estrangeiros.

Outro elemento citado no estudo é a utilização do mesmo termo em outras partes do território brasileiro. Olinda, em Pernambuco, fundada décadas antes de Belém, também teria sido identificada como Mairi por indígenas da região. A ocorrência em diferentes localidades é apresentada como um indicativo de que a palavra não funcionava como o nome exclusivo de uma antiga cidade Tupinambá localizada onde hoje está Belém.

A presença indígena continua sendo parte da história

A pesquisa não significa negar a presença indígena ou a participação dos povos originários na formação histórica de Belém. A questão levantada pelo historiador é outra: diferenciar a presença e a agência indígena comprovadas historicamente de uma narrativa específica sobre a origem do nome da cidade que não encontra respaldo nas fontes analisadas.

Nesse sentido, a utilização de Mairi pelos Tupinambá pode ser interpretada como uma forma de incorporar a chegada de estrangeiros à própria compreensão de mundo desses povos. O termo não seria simplesmente uma denominação anterior à colonização, mas resultado de uma experiência histórica de contato e transformação.

A distinção é importante porque a ideia de uma Belém pré-colonial chamada Mairi acabou sendo incorporada a diferentes manifestações contemporâneas como se fosse um dado histórico estabelecido. A pesquisa chama atenção justamente para a necessidade de retornar às fontes originais antes de transformar uma interpretação em uma afirmação histórica.

A discussão também mostra como narrativas de origem podem ganhar força ao longo do tempo. A ideia de um nome indígena anterior à fundação portuguesa de 1616 oferece uma explicação simples para a origem da cidade, mas a documentação analisada pelo estudo aponta para uma história mais complexa, marcada pelo contato entre povos indígenas e europeus.

Questionar a origem atribuída ao termo Mairi, portanto, não diminui a importância da história indígena de Belém. Pelo contrário, reforça a necessidade de compreender essa história a partir das evidências disponíveis, distinguindo o que está documentado das interpretações construídas posteriormente.

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