NOTÍCIANOTÍCIASParáPOLÍTICA

Como o tetravô de Flávio Dino ajudou o Império a combater a Cabanagem

A história familiar de Flávio Dino, ministro do Supremo Tribunal Federal, atravessa diferentes períodos da política brasileira. Um dos principais personagens dessa trajetória é Francisco Manuel Antônio Monteiro Tapajós, seu tetravô, proprietário de terras na região do rio Tapajós durante o Império. Segundo pesquisa acadêmica sobre a genealogia da família, Tapajós colaborou com o governo provincial durante a repressão à Cabanagem e posteriormente recebeu reconhecimento do imperador Dom Pedro II. A partir dele, a família estabeleceu vínculos com a política e com as instituições de poder da Amazônia. Nas gerações seguintes, nomes da família ocuparam cargos no Legislativo, no Judiciário e na política maranhense.

A Cabanagem e a disputa pelo poder no Grão-Pará

Para entender a trajetória de Francisco Tapajós, é necessário voltar ao cenário político e social do Grão-Pará no século XIX. A província vivia uma situação bastante diferente de outras partes do Império. A região havia permanecido fortemente ligada a Portugal mesmo depois da Independência proclamada em 1822 e só reconheceu oficialmente a separação em agosto de 1823.

A Independência, porém, não significou uma mudança imediata nas estruturas sociais e econômicas da província. Grande parte da população era formada por indígenas, negros, mestiços, escravizados, libertos e trabalhadores pobres que viviam em condições precárias. Ao mesmo tempo, comerciantes, proprietários rurais e grupos ligados às estruturas administrativas disputavam espaço e influência dentro do governo provincial.

Foi nesse ambiente que surgiu a Cabanagem, uma das maiores revoltas populares do período regencial. O movimento começou em Belém em janeiro de 1835 e se espalhou por diferentes áreas da então enorme Província do Grão-Pará, que abrangia territórios correspondentes a vários estados da atual Região Norte.

Os chamados cabanos eram, em grande parte, indígenas, negros, mestiços e integrantes das camadas pobres da população. O nome da revolta está relacionado às cabanas simples onde muitos desses habitantes viviam às margens dos rios e igarapés. A revolta, entretanto, não foi formada exclusivamente por setores populares. Em determinados momentos, também contou com a participação de integrantes das elites locais insatisfeitos com o poder central e com a administração provincial.

A insatisfação acumulada explodiu em Belém em 1835. Os rebeldes conseguiram tomar o governo provincial e instalaram sucessivos governos cabanos. Félix Clemente Malcher, Francisco Vinagre e Eduardo Angelim estiveram à frente de diferentes momentos da ocupação da capital.

A experiência de poder dos cabanos, entretanto, durou pouco na capital. Em 1836, forças enviadas pelo governo regencial retomaram Belém. A partir daí, os rebeldes continuaram resistindo no interior da província, principalmente utilizando os rios e a extensa geografia amazônica como espaço de mobilização. A repressão prosseguiu até 1840 e foi marcada por extrema violência.

Estimativas históricas apontam que dezenas de milhares de pessoas morreram durante o conflito. Um estudo publicado na revista da Universidade de São Paulo destaca que a revolta provocou mais de 30 mil mortes e atingiu diferentes grupos sociais, incluindo indígenas, africanos, mestiços, escravizados e integrantes das próprias elites amazônicas.

Onde entra Francisco Tapajós

É nesse contexto que aparece Francisco Manuel Antônio Monteiro Tapajós, nascido em 1815 e considerado o patriarca da família Tapajós na genealogia que posteriormente chegaria a Flávio Dino.

Segundo a dissertação de mestrado “A Tradição Engajada: origens, redes e recursos eleitorais no percurso de um agente”, apresentada por José Barros Filho na Universidade Federal do Maranhão em 2007, Francisco Tapajós tornou-se proprietário de terras às margens do rio Tapajós e colaborou com o governo provincial no combate à Cabanagem. A pesquisa genealógica registra que, posteriormente, ele recebeu do imperador Dom Pedro II o reconhecimento de “Herói de Tapajós”.

A atuação de Tapajós não ficou restrita ao campo militar ou à defesa dos interesses do governo imperial. Depois da repressão à revolta, ele ingressou na política provincial. Foi deputado provincial e, em 1874, ocupou a presidência da Assembleia Provincial do Grão-Pará.

A trajetória mostra como a participação nas estruturas políticas do Império podia se transformar em patrimônio político e social para as gerações seguintes. O caso de Tapajós é apresentado na pesquisa acadêmica utilizada para reconstruir a genealogia de Dino como o início de uma sequência familiar que passaria por cargos políticos e jurídicos.

Há ainda outro aspecto registrado nas pesquisas sobre a família. Um estudo citado no levantamento genealógico aponta que Francisco Tapajós era proprietário de uma olaria e que estabelecimentos ligados a ele utilizaram trabalho indígena compulsório. O mesmo trabalho acadêmico menciona a obtenção de créditos provinciais para empreendimentos do proprietário.

A ligação com os Castro e Costa

A conexão direta entre a família Tapajós e a linhagem que posteriormente levaria o sobrenome Castro e Costa ocorreu por meio de Heloisa Clementina Monteiro Tapajós, filha de Francisco Tapajós.

Ela se casou com Nicolau Castro e Costa, que também participou da política provincial. Nicolau foi deputado da Assembleia Provincial do Amazonas em 1874. Naquele período, o sistema eleitoral era censitário, restringindo a participação política de acordo com critérios econômicos e de propriedade.

É dessa união que parte da linhagem de Flávio Dino se conecta à família Tapajós. O sobrenome Tapajós deixou de aparecer nas gerações posteriores, enquanto Castro e Costa permaneceu na composição do nome familiar.

A árvore genealógica elaborada na pesquisa de José Barros Filho apresenta uma sequência que passa por Francisco Tapajós, Heloisa Clementina, Nicolau Castro e Costa e, posteriormente, Nicolau Dino de Castro e Costa e Sálvio Dino até chegar a Flávio Dino.

Do Parlamento ao Judiciário

Nas gerações seguintes, a presença da família nas estruturas de poder continuou, mas em diferentes instituições.

Nicolau Dino de Castro e Costa, avô de Flávio Dino, foi desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão e chegou à presidência, vice-presidência e corregedoria da Corte. Também publicou trabalhos jurídicos e participou do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão.

O pai de Flávio Dino, Sálvio Dino Jesus de Castro e Costa, também construiu uma trajetória na política. Foi vereador de São Luís, deputado estadual e prefeito de João Lisboa em dois mandatos. Além da carreira política, atuou como advogado e escritor e integrou a Academia Maranhense de Letras.

A própria pesquisa acadêmica que analisou a genealogia de Flávio Dino chama atenção para a continuidade das relações familiares com diferentes áreas de poder. O sociólogo Ricardo Costa de Oliveira, pesquisador de famílias políticas, classificou o caso como parte de um padrão em que famílias tradicionais mantêm presença simultaneamente no Legislativo, no Judiciário, nas Forças Armadas e na intelectualidade regional.

Isso não significa que cada geração tenha ocupado o mesmo tipo de cargo ou que a trajetória individual de Flávio Dino possa ser reduzida à de seus antepassados. A própria carreira do ministro inclui concurso para a magistratura federal, atuação acadêmica, passagem pela política e, posteriormente, chegada ao Supremo Tribunal Federal.

O que a genealogia demonstra é outra coisa: a existência de uma longa trajetória familiar relacionada às estruturas políticas, jurídicas e econômicas do Norte e Nordeste brasileiro, iniciada pelo menos no século XIX.

Uma história que atravessa Império e República

A trajetória de Francisco Tapajós ajuda a observar uma característica recorrente da formação das elites regionais brasileiras. Durante o Império, proprietários de terras que se aproximavam das estruturas do Estado podiam acumular prestígio econômico, influência política e reconhecimento institucional.

No caso da família que posteriormente chegaria a Flávio Dino, essa trajetória atravessou diferentes momentos históricos. Começou com a propriedade de terras e a colaboração com o governo provincial durante a Cabanagem, passou pela Assembleia Provincial, chegou ao Judiciário maranhense e continuou na política por meio de Sálvio Dino.

Quase dois séculos depois, Flávio Dino ocupa uma cadeira no Supremo Tribunal Federal. Sua trajetória individual pertence a outro contexto político e institucional, mas sua genealogia revela uma continuidade familiar pouco comum: cinco gerações separando o atual ministro do STF de Francisco Tapajós, personagem ligado às estruturas do poder imperial no Grão-Pará.

A história também expõe uma ironia própria da formação política brasileira. A Cabanagem foi uma revolta que colocou setores pobres, indígenas, negros e mestiços em confronto com as estruturas de poder da época. Do outro lado desse conflito estavam autoridades imperiais, proprietários e grupos que defendiam a manutenção da ordem estabelecida.

Francisco Tapajós esteve entre aqueles que colaboraram com o governo provincial na repressão ao movimento. Décadas depois, sua família estava novamente inserida nas instituições que organizavam o poder regional, agora por meio da política e do Judiciário.

A genealogia, portanto, não determina a trajetória política de Flávio Dino, mas ajuda a compreender de onde veio parte do capital social e institucional acumulado por sua família ao longo de gerações. Da propriedade de terras às margens do Tapajós à Assembleia Provincial, do Tribunal de Justiça do Maranhão à política partidária e, finalmente, ao Supremo Tribunal Federal, a história familiar atravessa diferentes regimes sem romper completamente os vínculos com as estruturas de poder.

Etiquetas

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Fechar