O Censo Demográfico de 2022 confirmou em números uma realidade percebida há décadas no Pará: 446.476 pessoas nascidas no Maranhão vivem atualmente no estado. O contingente representa o maior grupo de migrantes internos entre os estados que compõem a população paraense e é resultado de uma das rotas de deslocamento populacional mais antigas e consolidadas da Amazônia brasileira.
A distribuição desses moradores pelos municípios, porém, revela uma característica importante desse processo migratório. Belém aparece apenas na terceira posição, com cerca de 31 mil maranhenses. À frente estão Parauapebas, com quase 80 mil, e Marabá, com aproximadamente 38,4 mil moradores nascidos no Maranhão.
A concentração no sudeste paraense está diretamente relacionada à formação das frentes econômicas que transformaram a região nas últimas décadas. Parauapebas e Marabá se consolidaram como importantes centros urbanos do eixo associado ao Projeto Grande Carajás, cuja implantação, a partir do fim dos anos 1970, impulsionou a mineração de ferro e uma extensa cadeia de atividades ligadas à construção civil, ao comércio e aos serviços.
A própria geografia ajudou a consolidar esse movimento. A Estrada de Ferro Carajás estabeleceu uma ligação entre o interior do Maranhão e o sudeste do Pará, acompanhando uma rota que também passou a ser utilizada por trabalhadores em busca de oportunidades. O avanço da mineração e das atividades econômicas associadas ao empreendimento contribuiu para intensificar a chegada de maranhenses à região.
Marabá, por sua vez, já funcionava como um importante entroncamento e polo regional antes mesmo da criação de Parauapebas como município, em 1988. A cidade recebeu migrantes maranhenses durante diferentes fases da expansão econômica do sudeste paraense.
A composição dos municípios com maior presença de maranhenses também mostra que o fenômeno não está restrito à mineração. Canaã dos Carajás e Itaituba aparecem entre os principais destinos. Enquanto Canaã está associada à expansão da atividade mineral, Itaituba teve seu crescimento populacional também relacionado às atividades de garimpo na região do Tapajós.
Outros municípios, como Paragominas, Dom Eliseu, Ulianópolis e Rondon do Pará, estão inseridos em áreas marcadas pela expansão da agropecuária ao longo das rodovias BR-010 e BR-222. Já Tucuruí e Novo Repartimento tiveram parte importante de sua expansão relacionada à construção e à operação da Usina Hidrelétrica de Tucuruí.
Municípios como Xinguara, Redenção, Itupiranga e Jacundá também integram esse processo, associado à expansão da pecuária e à ocupação econômica do sudeste paraense principalmente a partir das décadas de 1970 e 1980.
Ananindeua aparece na quarta posição e representa uma dinâmica diferente. Por fazer parte da Região Metropolitana de Belém e ser o segundo município mais populoso do Pará, a cidade também recebeu migrantes atraídos pelas oportunidades da capital. Ao mesmo tempo, o custo de moradia e de vida contribuiu para que parte dessa população se estabelecesse no município metropolitano em vez de Belém.
O mapa da presença maranhense no Pará, portanto, revela uma migração fortemente associada ao trabalho e às frentes de expansão econômica. Em vez de se concentrar exclusivamente na capital, como ocorre em muitos processos migratórios, uma parcela significativa da população maranhense se estabeleceu em municípios ligados à mineração, à agropecuária, ao garimpo, à construção civil e a grandes projetos de infraestrutura.
Essa trajetória ajuda a compreender também a formação cultural de cidades como Parauapebas e Marabá. A presença de centenas de milhares de pessoas nascidas no Maranhão contribuiu para criar uma identidade regional marcada pelo encontro entre diferentes origens amazônicas, fazendo com que elementos da cultura maranhense estejam profundamente presentes no cotidiano de diversos municípios paraenses.



