Belém tem um problema recorrente com um certo tipo de crítica. Toda vez que aparece um projeto de investimento privado na cidade, surge um grupo jovem, politicamente engajado e com bastante influência nas redes, que trata o capital privado como uma ameaça a ser combatida por princípio, antes mesmo de qualquer avaliação concreta do que o projeto representa. O episódio mais recente é o data center BEL1, da Elea Data Centers, que vai ocupar uma área portuária no Barreiro com um investimento inicial de R$ 250 milhões e potência de 7,5 megawatts, com possibilidade de expansão para até 100 megawatts. É um projeto pequeno se comparado ao que já se discute em praças como Fortaleza, mas mesmo assim virou alvo de uma campanha de desconfiança que soa mais ideológica do que técnica.
O pano de fundo dessa reação não é difícil de entender. Belém arrecada pouco, gera poucos empregos formais e vem perdendo população para outras regiões do país, principalmente para o Sul e para Goiás. Uma cidade nessa situação não tem margem para tratar qualquer capital que chegue como um inimigo a ser barrado. E é irônico que parte considerável dessa militância que hoje ataca o projeto já nem mora mais em Belém. Foi embora justamente porque não encontrou oportunidade aqui, o que é, no fundo, prova do próprio problema que insiste em não discutir com seriedade: uma economia estagnada que expulsa gente jovem e qualificada. Criticar a falta de investimento à distância, enquanto se rejeita o investimento que aparece, é uma contradição que raramente é enfrentada.
Dito isso, seria um erro tratar toda oposição ao BEL1 como birra ideológica. O Ministério Público do Pará abriu inquérito civil sobre o projeto por razões concretas: risco de formação de ilhas de calor, ausência de consulta pública e falta de estudos ambientais específicos sobre consumo de água e energia em uma região que já sofre com temperaturas altas. A própria Elea admitiu ao MPPA que o licenciamento ambiental ainda nem está definido, e que não há sequer clareza sobre qual órgão vai fiscalizar o empreendimento. Isso não é populismo antidesenvolvimentista, é exigência básica de governança. Um data center desse porte não é só um prédio: envolve refrigeração, consumo elétrico contínuo e infraestrutura associada que precisa ser avaliada com rigor, principalmente numa cidade com saneamento capenga e um histórico de licenciamento frouxo. Nesse ponto específico, quem cobra transparência da empresa está certo, e Belém já pagou caro demais por projetos aprovados sem escrutínio para repetir o erro.
O problema não é a cobrança técnica, é a generalização. Existe uma diferença enorme entre dizer que o projeto precisa de estudo ambiental antes de operar e dizer que o projeto em si é ilegítimo porque vem de capital privado ou porque não resolve sozinho o desemprego da cidade. Essa segunda posição, que é a que de fato circula entre parte dessa militância, parte de um padrão de exigência que nenhuma cidade do mundo cumpre: quer que um único empreendimento gere emprego em massa, transferência de tecnologia e desenvolvimento local completo, e descarta o projeto inteiro quando isso não acontece. Nenhuma capital brasileira trata assim um investimento de R$ 250 milhões. O problema de Belém não é excesso de capital chegando, é escassez dele, e enquanto parte da cidade discute pauta com sotaque de quem vive em economia desenvolvida, o Pará segue perdendo terreno para estados que souberam atrair investimento sem parar de discutir impacto ambiental ao mesmo tempo. As duas coisas não são incompatíveis, só exigem gente disposta a fazer as duas contas ao mesmo tempo, em vez de escolher uma bandeira e tratar a outra como traição.



