Flávio Bolsonaro muda carta após se declarar presidente eleito e usar brasão antigo; Trump diz que não vai interferir
Senador publicou versões com mudanças no texto e no símbolo nacional após contestar, sem provas, o resultado da eleição vencida por Lula. Presidente dos EUA confirmou autorização de entrada de Flávio no país, mas evitou apoiar diretamente a declaração.

A carta divulgada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) após sua derrota na eleição presidencial de 2026 passou por sucessivas alterações nesta quarta-feira (28), incluindo mudanças na forma como ele se apresenta ao país e na imagem do brasão da República. Em uma das primeiras versões, o parlamentar se declarou o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, apesar de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter confirmado a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio. O documento também acusa o processo eleitoral de fraude, mas não apresenta provas para sustentar a alegação.
A primeira versão da carta, divulgada por aliados de Flávio nos Estados Unidos, trazia no alto da página um brasão com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, grafia associada à antiga denominação oficial do país. O nome foi substituído por “República Federativa do Brasil” em outra versão do documento. A expressão histórica não é, por si só, uma falsificação: o problema foi a utilização de um símbolo desatualizado em uma carta que se apresentava como manifestação de autoridade política nacional. A Folha de S.Paulo identificou ao menos quatro versões do material, com diferenças tanto na apresentação visual quanto no conteúdo.
As mudanças também atingiram o texto. Na publicação inicial feita pelo próprio senador na rede social X, a abertura o apresentava como “verdadeiro presidente do Brasil”. Cerca de 22 minutos depois, a postagem foi editada, e a expressão deu lugar a “líder do Brasil”. Em outro trecho, a afirmação “eu sou o presidente eleito” também foi substituída por “eu sou o líder”. A formatação da assinatura de Flávio mudou na versão revisada. A análise dos arquivos apontou ainda que, em um dos PDFs, o brasão atualizado foi colocado sobre a imagem anterior, coberta por um retângulo.
Donald Trump afirmou que não pretende se envolver na controvérsia política brasileira. Questionado sobre a carta, o presidente norte-americano confirmou que os Estados Unidos autorizaram a entrada de Flávio no país e declarou: “Não vou fazer comentário sobre isso, mas eu sei que demos a ele uma autorização para entrar no país. Mas eu não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha, isso é certo”. A fala evitou um endosso explícito à autoproclamação do senador, embora Trump tenha voltado a questionar, sem apresentar provas, a eleição brasileira.
Enquanto isso, integrantes da própria oposição brasileira demonstraram cautela em relação ao documento. Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, afirmou que nem ele nem o partido poderiam sustentar a existência de fraude eleitoral sem provas e classificou a carta como um desabafo. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), defendeu o respeito ao resultado das urnas. Ao anunciar que pretende liderar a oposição a partir dos Estados Unidos, Flávio tenta manter a contestação política da derrota mesmo após a confirmação oficial do resultado eleitoral.



