Uma espécie pouco presente na cafeicultura brasileira atual foi encontrada em quintais agroflorestais do nordeste paraense. Conhecida como “beirão” na região, a Coffea liberica foi identificada em propriedades rurais de Irituia e passou a integrar uma pesquisa que investiga a diversidade dos cafeeiros preservados por famílias agricultoras ao longo de gerações.
O levantamento faz parte do projeto Café Ancestral Agroecológico no Nordeste Paraense e analisou 57 exemplares em oito propriedades de cinco municípios: Irituia, São Domingos do Capim, Ourém, Capitão Poço e São Miguel do Guamá. A equipe confirmou a presença de duas espécies, Coffea arabica, conhecida localmente como “pretinho” e “moca”, e Coffea liberica, chamada de “beirão”.
Após a identificação taxonômica realizada pela Embrapa Amazônia Oriental, 48 exemplares férteis foram incorporados ao Herbário IAN. A coleção passou a contar com uma seção temática dedicada ao café dentro do acervo “Agricultura da Amazônia”.
A identificação do “beirão” é um dos resultados de maior interesse científico do trabalho. A espécie tem pouca expressão na cafeicultura brasileira contemporânea, e ainda existem poucas informações sobre seu cultivo na região Norte e sobre como chegou ao território paraense. Os pesquisadores também encontraram plantas de Coffea liberica com frutos vermelhos e amarelos. Já o “moca”, variedade de Coffea arabica, se diferencia por produzir uma única semente arredondada em cada fruto.
Memória familiar ajuda a preservar os cafeeiros
Em Irituia, a conservação dessas plantas está ligada à história das famílias que vivem na região. Aos 66 anos, Agílio Cordeiro Vieiras, morador do Sítio Conceição, convive com o café “beirão” desde a infância. Segundo ele, os cafeeiros já faziam parte da propriedade quando era criança. Sua mãe e sua avó mantinham as plantas perto da casa e contavam que elas estavam ali havia muito tempo, embora não soubessem informar a origem das primeiras mudas.
Histórias semelhantes foram identificadas em outras propriedades. Em muitos casos, as mulheres tiveram papel central na manutenção dos cafeeiros, dos métodos de preparo e dos conhecimentos transmitidos entre gerações. A pesquisa destaca, assim, a importância da agricultura familiar e da memória das mulheres para a conservação da diversidade agrícola.
A investigação começou com a iniciativa do professor José Sebastião Romano de Oliveira, conhecido como Zezinho, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), que vive na região e mobilizou estudantes do campus de Capitão Poço. O objetivo é compreender se a produção, além de suas características agroecológicas, pode ser reconhecida por sua trajetória histórica e por sua ligação com a identidade territorial.
Para isso, o estudo combina relatos dos moradores, ferramentas participativas, como mapas falados e linhas do tempo, e análises científicas. A proposta é aproximar os conhecimentos construídos pelas famílias ao longo dos anos dos métodos de identificação e pesquisa botânica.
O projeto reúne a Embrapa Amazônia Oriental, a Ufra e a Cooperativa D’Irituia, com apoio da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). A iniciativa considera agricultores e agricultoras protagonistas da conservação das plantas em seus ambientes de cultivo e dos conhecimentos relacionados ao manejo e à adaptação das espécies às condições locais.
Café agroflorestal busca ampliar mercado
Além da preservação dos cafeeiros, a pesquisa acompanha experiências de produção que integram o cultivo do café à manutenção da vegetação. O produtor Avelino Brás de Oliveira trabalha há cerca de 20 anos com o sistema agroflorestal e mantém aproximadamente três mil cafeeiros distribuídos em duas áreas, consorciados com frutíferas amazônicas, citros e árvores nativas.
A propriedade também possui uma agroindústria responsável pelo beneficiamento e pela torra dos grãos. O café produzido é comercializado no Pará e em São Paulo.
Nesse modelo, o cultivo do café divide espaço com outras espécies vegetais, contribuindo para manter a diversidade de árvores e plantas alimentares nas áreas produtivas. A Cooperativa D’Irituia busca fortalecer e profissionalizar a cadeia, enquanto a caracterização dos cafeeiros pode ajudar a consolidar a identidade do produto e ampliar o acesso a mercados interessados em origem e produção agroecológica.
Entre as iniciativas em andamento estão a construção de uma identidade visual e o início do processo de registro da marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A obtenção de uma indicação geográfica e a certificação orgânica são possibilidades futuras, ainda não concretizadas.
Pesquisa busca esclarecer a história do café no Pará
A história do café no Brasil tem um marco associado à chegada de sementes da Guiana Francesa a Belém, em 1727. Em 2027, serão completados 300 anos desse episódio. A presença de cafeeiros antigos no nordeste paraense desperta o interesse em investigar a relação entre essa trajetória e as plantas mantidas atualmente pelas famílias agricultoras.
Entretanto, a identificação botânica, por si só, não comprova que os exemplares encontrados descendam diretamente das plantas introduzidas no século XVIII. O pesquisador Osvaldo Kato, da Embrapa Amazônia Oriental, ressalta que ainda são necessários estudos para aprofundar a identificação e compreender a história desses cafeeiros.
A pesquisadora Fernanda Ilkiu-Borges de Souza é responsável pela identificação taxonômica das espécies. Segundo Kato, o trabalho também precisa avançar na avaliação dos sistemas produtivos, com o objetivo de melhorar a eficiência do cultivo e permitir, futuramente, uma comercialização mais estruturada.
A expectativa é que o projeto contribua para valorizar um patrimônio agrícola mantido por gerações no nordeste paraense, ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade regional e criar oportunidades de renda para as famílias. A pesquisa busca conciliar esse potencial econômico com a conservação ambiental e a preservação dos saberes que permitiram a permanência dos cafeeiros ao longo do tempo.



