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O que Belém pode aprender com o boom de data centers em Fortaleza

Enquanto Belém discute se deve aceitar um data center de 7,5 megawatts, Fortaleza já colheu os frutos de ter feito essa escolha antes. A capital cearense tem hoje apenas 19 megawatts em operação, mas concentra o maior volume de nova capacidade em construção do país: 227 megawatts, quase doze vezes o que já opera por lá, e mais do que os 222 megawatts de São Paulo e Barueri e os 195 megawatts de Campinas somados aos projetos em andamento nessas regiões. Um mercado que até pouco tempo era dominado pelo eixo paulista agora tem uma capital nordestina como epicentro da expansão, e isso não é acaso. É o resultado de infraestrutura, energia e política tributária convergindo na direção certa, exatamente o tipo de convergência que Belém tem a chance de replicar em escala menor, se parar de tratar o assunto como uma ameaça.

O caso de Fortaleza mostra que a atração de investimento em data center não depende de mistério nenhum. A cidade é o principal ponto de conexão de cabos submarinos do Brasil e está fisicamente mais próxima da Europa e da América do Norte do que São Paulo, o que reduz entre 10 e 30 milissegundos o tempo de resposta em operações internacionais. Some a isso energia renovável barata, terreno disponível e proximidade com outras capitais do Nordeste, e o resultado é um mercado onde o preço cobrado por potência já supera o de São Paulo e Campinas: US$ 208 por kW ao mês nas operações de hyperscale, contra US$ 135 e US$ 145 respectivamente. Isso significa que Fortaleza não está atraindo esses projetos por preço baixo, está atraindo por vantagem estrutural, o tipo de vantagem que se constrói com decisão de infraestrutura, não com discurso.

Belém tem parte desse mesmo potencial e ainda não decidiu se vai usá-lo. A cidade também está na rota de conectividade internacional relevante para a América do Sul, tem matriz energética com peso hídrico considerável e, com a COP30 como vitrine, ganhou um argumento extra de posicionamento que Fortaleza não teve de graça. O BEL1 da Elea é pequeno se comparado ao projeto que puxa sozinho 200 dos 227 megawatts em construção na capital cearense, mas é exatamente assim que mercados desse tipo começam: com uma operação inicial que testa o terreno e, se bem sucedida, atrai o restante do ecossistema. Foi assim que o gestor da JLL descreveu o efeito esperado em Fortaleza, um projeto grande puxando outras empresas atrás dele. Belém não vai começar com 200 megawatts, mas pode começar.

Existe ainda um efeito que costuma ficar de fora desse debate, que é o que um data center atrai ao redor de si, não o que ele emprega dentro de si. É verdade que uma operação desse tipo não gera milhares de vagas diretas, a atividade é automatizada e demanda pouca mão de obra no dia a dia. Mas o próprio caso de Fortaleza mostra que o valor está no ecossistema que se forma em torno da infraestrutura: capacidade de processamento e conectividade de baixa latência instaladas localmente reduzem uma barreira concreta para empresas de tecnologia, provedores de nuvem, startups que dependem de IA e serviços digitais que hoje precisam contratar servidor em São Paulo ou fora do país. É essa lógica que Belém pode aproveitar sem depender só do BEL1: infraestrutura de dados instalada na cidade cria condição para atrair empresa de base tecnológica que hoje nem considera o Pará como opção, simplesmente porque a estrutura de processamento e conexão não existia aqui. E isso puxa consigo demanda por profissional qualificado em redes, segurança da informação, infraestrutura em nuvem e desenvolvimento de software, área que Belém forma gente para exportar, não para empregar. Um polo local de dados não resolve isso sozinho, mas é precondição para que resolva, e cidade nenhuma constrói ecossistema de tecnologia sem primeiro ter onde processar dado.

O contexto nacional joga a favor de quem decidir entrar agora. O mercado brasileiro de data centers tem 706 megawatts em operação e mais 660 em construção, a maior parte já pré-contratada, com uma fila de 4,6 mil megawatts em projetos planejados e expectativa de dobrar de tamanho até 2030. A aprovação do Redata pelo Congresso, com suspensão de tributos federais sobre equipamentos do setor, reduz o custo dos próximos investimentos e deve acelerar ainda mais esse ritmo. Cidades que ficarem de fora dessa primeira onda não vão simplesmente esperar a próxima. Vão continuar de fora enquanto o mercado se consolida em quem já tem energia contratada e terreno preparado, que é justamente o critério que a JLL aponta como decisivo para os próximos anos. Rejeitar o BEL1 por princípio não é proteger Belém de nada. É desistir de uma corrida que outras capitais nordestinas já entenderam que vale a pena correr.

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