Luto

Pará se despede de Zélia Amador de Deus; conheça a caminhada de uma das grandes vozes da luta antirracista na Amazônia

Professora emérita da UFPA, artista, pesquisadora e fundadora do Cedenpa morreu aos 74 anos; homenagens destacam uma vida dedicada à educação, à cultura e à defesa da população negra

O Pará se despede nesta quarta-feira (9) de Zélia Amador de Deus, uma das figuras mais importantes da educação, da cultura e da luta antirracista na Amazônia. Professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA), atriz, diretora de teatro, pesquisadora e militante do movimento negro, ela morreu na terça-feira (8), em Belém, aos 74 anos. A partida provocou uma série de homenagens de universidades, instituições públicas, artistas, pesquisadores e movimentos sociais.

O velório acontece no Teatro Experimental Waldemar Henrique, em Belém. A UFPA decretou luto oficial de três dias e destacou a relação de mais de cinco décadas entre Zélia e a instituição. Nesta quarta, o reitor da universidade publicou uma homenagem na qual definiu a professora como uma das pessoas mais importantes da história da UFPA e ressaltou sua contribuição para tornar a instituição mais inclusiva e antirracista.

Nascida no território quilombola de Mangueiras, no Marajó, Zélia construiu uma trajetória que uniu universidade, arte e militância. Depois de chegar a Belém com a família, cresceu na Sacramenta e estudou em escolas públicas. Ainda jovem, participou do movimento estudantil e, posteriormente, ingressou na UFPA, onde iniciou sua formação em Letras e também se aproximou do teatro.

Na universidade, tornou-se professora a partir de 1978 e desenvolveu trabalhos nas áreas de História da Arte, Estética, História e Teoria do Teatro. Também participou da construção do Núcleo de Artes, que mais tarde daria origem ao Instituto de Ciências da Arte, e ocupou cargos de gestão, incluindo a direção do antigo Centro de Letras e Artes e a vice-reitoria da UFPA, entre 1993 e 1997.

Fora dos espaços acadêmicos, Zélia esteve entre as fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), criado em 1980. A organização se tornou uma referência na luta contra o racismo e na defesa dos direitos da população negra no estado. Ao longo da carreira, a professora também atuou na defesa do reconhecimento e da titulação de territórios quilombolas, das ações afirmativas e da ampliação do acesso de pessoas negras à educação.

A atuação de Zélia alcançou também debates nacionais. Ela integrou a Comissão Brasileira na Conferência Mundial contra o Racismo, realizada pela Organização das Nações Unidas em Durban, em 2001, participou de iniciativas voltadas à promoção da igualdade racial e esteve envolvida na construção de políticas de ações afirmativas. Também foi uma das responsáveis pela criação do Grupo de Estudos Afro-Amazônicos da UFPA e presidiu a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros entre 2010 e 2012.

No campo artístico, sua trajetória esteve ligada ao teatro e à produção cultural paraense. Zélia foi atriz, diretora e dramaturga e participou de projetos que aproximaram arte, educação e transformação social. Para a UFPA, essa dimensão artística fazia parte da própria maneira como ela atuava na formação de pessoas e na construção de espaços de diálogo dentro da universidade.

O reconhecimento veio também dentro da própria instituição. Em 2019, Zélia recebeu por unanimidade o título de professora emérita da UFPA, honraria concedida a docentes com contribuições consideradas de grande relevância para a universidade e para a sociedade. Na cerimônia, foi recebida de pé pelos integrantes do Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão.

Poucas semanas antes de morrer, Zélia havia participado de uma homenagem que agora ganhou um significado ainda maior. Em 18 de agosto, esteve presente no plantio de um baobá no campus da UFPA, cercada por familiares e amigos. A escolha da árvore foi simbólica: associada à ancestralidade africana, à resistência e à permanência, ela passou a representar também a marca deixada pela professora na universidade.

A despedida mobilizou instituições paraenses e nacionais. A Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) afirmou que Zélia deixa um legado que ultrapassa os muros da universidade, enquanto a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros destacou sua importância para a construção de uma intelectualidade negra comprometida com a transformação social. O Ministério da Igualdade Racial também lamentou a morte e a definiu como uma das principais referências da luta antirracista na Amazônia.

Em Belém, a repercussão também alcançou a cena cultural e política. Artistas, jornalistas, intelectuais e amigos prestaram homenagens, enquanto a governadora Hana Ghassan e o prefeito Igor Normando publicaram manifestações de pesar. A dimensão das homenagens ajuda a dimensionar uma trajetória que, durante décadas, atravessou salas de aula, palcos, movimentos sociais e espaços de formulação de políticas públicas.

Zélia Amador de Deus deixa uma marca que se espalhou por diferentes gerações. Seus alunos, os pesquisadores formados a partir de suas iniciativas, os artistas com quem trabalhou e os movimentos sociais aos quais dedicou parte da vida carregam um pedaço dessa história. Talvez por isso a imagem do baobá plantado poucas semanas antes de sua morte seja tão precisa: uma árvore fincada na terra, com raízes profundas e tempo suficiente para continuar crescendo muito depois de quem a plantou ter partido.

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