A bioeconomia da sociobiodiversidade já movimenta cerca de R$ 13,5 bilhões por ano no Pará, segundo um Relatório Técnico Preliminar coordenado pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), em parceria com universidades federais.
O estudo, baseado em metodologias da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou o protagonismo de cadeias produtivas como mandioca, pesca, aquicultura, cacau e açaí na economia paraense.
A mandioca lidera o Valor Bruto da Produção (VBP), com movimentação estimada em R$ 6,5 bilhões por ano. Em seguida aparecem pesca e aquicultura, com R$ 2,7 bilhões; cacau, com R$ 1,7 bilhão; e açaí, com R$ 1,5 bilhão.
Embora o valor total ainda seja inferior aos setores tradicionais da agropecuária e mineração, os pesquisadores destacam a enorme relevância social da bioeconomia amazônica. Segundo o levantamento, o setor ocupa mais de 271 mil pessoas e gera cerca de R$ 1,4 bilhão em massa salarial.
O estudo também aponta forte efeito multiplicador sobre a economia estadual. A cada R$ 1 investido na bioeconomia da sociobiodiversidade, são gerados R$ 1,13 no Produto Interno Bruto (PIB) do Pará. Esse impacto aumenta ao longo da cadeia produtiva, chegando a R$ 1,40 na etapa de comercialização.
Para o presidente da Fapespa, professor Marcel Botelho, a criação da Rede de Bioeconomia representa uma tentativa de construir um novo modelo de desenvolvimento para a Amazônia baseado em dados científicos e valorização dos territórios locais.
Cumaru revela subnotificação e perda de valor fora do Pará
Um dos principais destaques da pesquisa envolve a cadeia do cumaru. O levantamento revelou que a produção paraense está subnotificada nos dados oficiais.
Enquanto o IBGE registrou 148 toneladas da produção, movimentando R$ 13,3 milhões, a pesquisa da Rede de Bioeconomia identificou produção efetiva de 267 toneladas, com movimentação de R$ 24,4 milhões.
Segundo os pesquisadores, o cumaru chega a ganhar 330% de valor após o processo de industrialização, mas a maior parte dessa etapa ocorre fora do Pará.
Na fase inicial da cadeia, os coletores retêm cerca de 69,9% do valor agregado. Já na etapa industrial, a indústria passa a concentrar quase 74% do valor gerado, reduzindo drasticamente a participação dos extrativistas.
O professor Luiz Gonzaga Feijão da Silva, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), destacou que ainda existem inúmeras possibilidades de inovação e agregação de valor local para o produto.
Informalidade e crise climática preocupam pesquisadores
O relatório aponta a elevada informalidade como um dos principais entraves econômicos da bioeconomia amazônica.
Na cadeia da mandioca, por exemplo, mais de 99% da produção ocorre fora dos registros fiscais, devido ao predomínio de estruturas comunitárias e familiares.
A distribuição desigual de renda também aparece como desafio importante. Na cadeia da castanha-do-pará, os coletores ficam com apenas 2,9% do valor final do produto.
Já nas cadeias de andiroba e copaíba, onde existem associações organizadas, as comunidades conseguem reter entre 19% e 31% do valor gerado.
Outro ponto de preocupação é o avanço da emergência climática. Pesquisas de campo realizadas em municípios como Marabá, Rondon do Pará, Santarém e Oriximiná identificaram perdas severas na produção de castanha, mandioca e açaí devido às secas extremas e queimadas.
Segundo a diretora de Estatística e Tecnologia da Informação da Fapespa, Atyliana Dias, o futuro da bioeconomia paraense depende menos da expansão da extração e mais da redistribuição de renda, fortalecimento das organizações sociais e proteção dos territórios tradicionais.
Governança e próximos passos
O estudo destaca que o Pará já possui um ecossistema de políticas públicas voltadas à bioeconomia e à transição climática, incluindo a Política Estadual sobre Mudanças Climáticas, o Plano Estadual Amazônia Agora e o Plano Estadual de Bioeconomia.
A Rede de Bioeconomia prepara agora um novo relatório previsto para novembro, que deverá aprofundar análises sobre consumo intermediário, demanda de mercado, integração de cadeias produtivas e criação de um Índice de Resiliência Socioambiental municipal.
Para os pesquisadores, os dados mostram que a bioeconomia amazônica já é uma realidade consolidada no Pará, mas que ainda enfrenta desafios estruturais para se transformar em um modelo mais sustentável, competitivo e socialmente justo.



