Sob o calor úmido da Amazônia e cercada pelos rios da Ilha do Combu, em Belém, a produtora paraense Izete dos Santos Costa, conhecida como Dona Nena, vem se tornando um dos principais símbolos da transformação econômica do cacau amazônico. O reconhecimento internacional ganhou força após a visita dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Emmanuel Macron à propriedade da produtora, em 2024, durante agendas ligadas à Amazônia e à preparação para a COP30.
A visita colocou os holofotes sobre a pequena agroindústria criada por Dona Nena na Ilha do Combu, onde funciona a marca Casa do Chocolate Filha do Combu. O empreendimento produz chocolates artesanais de alto valor agregado utilizando cacau cultivado na própria floresta amazônica.
Segundo reportagem publicada pela revista Forbes Brasil, Dona Nena decidiu mudar completamente o modelo de negócio ao perceber que vender apenas amêndoas de cacau mantinha os produtores presos às oscilações do mercado de commodities e às margens reduzidas de lucro. A solução encontrada foi verticalizar a produção e transformar o cacau em chocolate premium.
A mudança elevou significativamente o valor do produto. Enquanto o quilo das amêndoas era comercializado por cerca de R$ 10 a R$ 15, os chocolates premium passaram a alcançar valores de até R$ 650 o quilo.
Hoje, a pequena fábrica produz entre 400 e 500 quilos mensais de chocolate e se tornou uma referência do chamado movimento “bean to bar”, no qual todo o processo — do cultivo ao produto final — ocorre dentro da própria cadeia produtiva local. Barras com alto teor de cacau, chocolates 100% cacau e sobremesas com nibs amazônicos ajudaram a posicionar a marca em um segmento sofisticado e voltado para consumidores que buscam qualidade e origem rastreável.
Além da produção própria, Dona Nena passou a articular uma rede de pequenos produtores da Ilha do Combu. Cerca de 30 famílias fornecem cacau para a cadeia produtiva da marca, reduzindo a dependência de atravessadores e ampliando a renda local. O modelo também ajuda a conter o abandono do cultivo de cacau em favor de atividades de retorno financeiro mais imediato, como o açaí.
Outro diferencial está no aproveitamento integral do fruto. O mel do cacau, normalmente descartado antes da fermentação, passou a ser utilizado em novos produtos, ampliando o valor agregado e reduzindo desperdícios.
Apesar do crescimento, os desafios seguem presentes. A produção enfrenta dificuldades logísticas, acesso limitado a crédito, problemas de infraestrutura e os impactos das mudanças climáticas sobre as colheitas. Mesmo assim, Dona Nena defende um modelo de expansão baseado na preservação da floresta.
“Meu objetivo é melhorar a produção do que já temos na floresta”, afirmou a produtora à Forbes, destacando que não pretende ampliar a lavoura às custas de desmatamento.
O caso de Dona Nena também fortalece um debate cada vez mais presente na Amazônia: o de transformar a região não apenas em fornecedora de matéria-prima, mas em protagonista de cadeias produtivas sofisticadas, sustentáveis e de alto valor agregado.



