Em julho de 2019, Tatiana Martins de Oliveira, 30, deixou seu emprego em um hotel de Belém e foi para Florianópolis (SC) passar alguns dias na casa de uma amiga. Com o dinheiro do seguro-desemprego, ela pretendia aproveitar as “férias forçadas”. No entanto, ao conseguir um emprego em um supermercado, decidiu permanecer na cidade. Após uma breve visita a Belém para conversar com a mãe, Tatiana voltou para Florianópolis, onde hoje é gerente do primeiro restaurante paraense na capital catarinense.
A migração de paraenses para Santa Catarina tem sido objeto de estudo da socióloga Andréa Bittencourt Pires Chaves, da UFPA. No estudo “População em deslocamento: a força de trabalho paraense em Santa Catarina”, publicado em 2022, Chaves explora as razões por trás dessa movimentação. Segundo ela, a busca por trabalho assalariado e melhores condições de vida são os principais fatores motivadores.
Rachel Oliveira, 29, e Pablo Bismark, 30, também saíram de Belém em busca de novas oportunidades. O casal, que trabalha na área de tecnologia, mudou-se para Florianópolis no final de 2023. Rachel, jornalista, hoje atua como supervisora de marketing. “Aqui temos mais segurança e melhores chances de trabalho”, diz ela.
A construção de um “ecossistema paraense” no Sul do país, onde amigos e familiares atraem uns aos outros, é um fenômeno curioso observado por Chaves. A pesquisadora destaca que o setor de serviços, com salários melhores e empregos formalizados, é o principal destino dos migrantes paraenses.
Dados do último Censo do IBGE mostram que 2,2% dos nascimentos em Santa Catarina são de filhos de mães paraenses. O Pará é o quarto estado com maior número de mães em Santa Catarina, atrás de Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo.
Vitor William Serrão da Silva, 28, é outro exemplo de migração. Em 2008, sua mãe, Lucy Cleide Serrão de Oliveira, mudou-se para Santa Catarina após a remoção dos camelôs das ruas de Belém afetar seu negócio de vendas de refeições. Em Florianópolis, ela conseguiu um emprego formal, e Vitor agora trabalha como desenvolvedor de software.
Adriano Ribeiro, 48, deixou esposa e filhas em Ananindeua para tentar a sorte em Florianópolis. Trabalhando como ajudante de pedreiro e vendendo chocolates à noite, ele espera conseguir um emprego na área de fibra ótica e trazer a família para o Sul. “Aqui os trabalhos pagam mais e a segurança é melhor”, diz ele.
Na internet, páginas dedicadas à comunidade paraense em Santa Catarina ajudam na integração, oferecendo informações sobre empregos e viagens em ônibus fretados.
O restaurante de Tatiana Martins de Oliveira é um ponto de encontro para os paraenses em Florianópolis. Além dos conterrâneos, os “manezinhos”, como são chamados os nativos, também frequentam o local para apreciar açaí puro de Castanhal e outros pratos típicos do Pará. “No Pará, não temos ofertas de emprego como aqui”, afirma Tatiana, que recentemente se casou com um baiano que conheceu em Santa Catarina.



