Uma planta amplamente utilizada pela medicina tradicional amazônica está ganhando reconhecimento científico nacional pelas suas propriedades terapêuticas no tratamento de feridas, infecções e inflamações. Conhecido popularmente como jucá ou pau-ferro, o vegetal vem sendo alvo de pesquisas conduzidas por cientistas da Universidade Federal do Amapá (Unifap) e da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), que comprovaram sua ação cicatrizante, antimicrobiana e anti-inflamatória.
Utilizado há gerações por comunidades amazônicas, o jucá sempre esteve presente nos tratamentos caseiros de machucados, queimaduras, problemas respiratórios e infecções. Agora, os estudos científicos reforçam o potencial da espécie como matéria-prima para medicamentos fitoterápicos e produtos veterinários desenvolvidos a partir da biodiversidade amazônica.
Conhecimento popular inspirou pesquisas científicas
O farmacêutico José Carlos Tavares Carvalho, coordenador do Laboratório de Pesquisa em Fármacos da Unifap, afirma que o contato com o jucá começou ainda na infância, em Macapá, onde via familiares utilizando a planta para tratar ferimentos e crises asmáticas.
Foi essa experiência que motivou o pesquisador a iniciar estudos acadêmicos sobre a espécie ainda na década de 1990, durante o mestrado realizado na Universidade de São Paulo (USP). As pesquisas comprovaram inicialmente a ação anti-histamínica da planta, especialmente no tratamento de sintomas respiratórios.
Com o avanço dos estudos, os cientistas passaram a investigar os efeitos do jucá sobre feridas complexas, principalmente em pacientes diabéticos, que enfrentam maior dificuldade de cicatrização devido à baixa circulação sanguínea e ao comprometimento imunológico causado pela doença.
Planta estimula produção de colágeno e combate bactérias
Pesquisas realizadas em parceria entre a Unifap e o Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa) mostraram que o jucá reúne diferentes compostos bioativos capazes de acelerar a regeneração dos tecidos e combater microrganismos.
Segundo os pesquisadores, a planta estimula a formação de fibras colágenas, fundamentais para a cicatrização da pele, além de possuir compostos fenólicos com forte ação antibacteriana.
Os resultados permitiram que formulações à base de jucá fossem incluídas no formulário oficial de fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, abrindo caminho para futura produção industrial regulamentada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Formulação amazônica supera pomadas comerciais
Na Ufopa, pesquisadores também desenvolveram testes voltados para uso veterinário. Liderados pelo médico veterinário Antonio Minervino, os estudos criaram formulações à base de jucá inicialmente aplicadas em bovinos e posteriormente em cães.
Os resultados apontaram desempenho superior ao de pomadas cicatrizantes comerciais, com maior retração das feridas e melhor qualidade da regeneração da pele.
O avanço mais recente resultou na criação do “Copanju”, formulação que combina jucá, copaíba e andiroba em uma base feita com manteiga de murumuru.
Segundo os cientistas, o produto apresentou forte ação antimicrobiana e alcançou 100% de retração das feridas ao longo de 21 dias de testes laboratoriais.
A nova tecnologia foi registrada como patente pela Ufopa em 2025 e poderá futuramente ser comercializada para tratamento veterinário de cães, gatos e equinos.
Biodiversidade amazônica ganha destaque na bioeconomia
Além do potencial medicinal, os pesquisadores destacam que o reconhecimento científico do jucá fortalece a valorização dos conhecimentos tradicionais amazônicos e amplia as possibilidades da bioeconomia regional.
Os estudos também reforçam a importância da preservação da floresta e da biodiversidade como fonte de inovação científica, geração de renda e desenvolvimento sustentável na Amazônia.



