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Nossa Senhora Aparecida, assim como Nossa Senhora de Nazaré, é daquelas que ninguém mexe

Questões políticas à parte, duas devoções marianas ocupam um lugar que ultrapassa eleições, partidos e disputas: fazem parte da fé, da memória e da identidade de milhões de brasileiros e paraenses

Tem coisas com as quais simplesmente não se mexe. Nossa Senhora Aparecida é uma delas. Nossa Senhora de Nazaré também. Uma é a Padroeira do Brasil; a outra é reconhecida pela Igreja como padroeira dos paraenses e Rainha da Amazônia. São devoções diferentes, com histórias próprias, mas que ocupam um espaço enorme na vida de seus povos.

E aqui entram as questões políticas, à parte. Não importa quem está disputando eleição, quem apoia quem, qual partido está crescendo ou quais grupos religiosos estão ganhando espaço no debate público. A fé de uma população não começa em período eleitoral e também não termina quando as urnas são fechadas. Nossa Senhora Aparecida não nasceu para campanha política. Nossa Senhora de Nazaré também não.

A devoção a Aparecida remonta ao encontro da imagem no rio Paraíba do Sul, em 1717, e sua importância cresceu ao longo dos séculos até que ela fosse oficialmente reconhecida como Padroeira do Brasil. Em Belém, a própria Arquidiocese mantém um santuário dedicado à santa, mostrando que essa devoção também faz parte da vida religiosa paraense.

Do outro lado, existe Nazaré. E aí estamos falando de uma relação ainda mais profunda com o Pará. O Círio de Nazaré não é apenas uma procissão. Para milhões de pessoas, é encontro de família, promessa, memória, tradição e fé. É gente que aprendeu a chamar Nossa Senhora de “Nazinha”, que guarda imagens em casa, que acompanha a berlinda, que puxa a corda, que assiste à passagem do Círio e que transmite essa devoção para os filhos.

A Arquidiocese de Belém define Nossa Senhora de Nazaré como Rainha da Amazônia e registra sua condição de padroeira dos paraenses. A própria história do Círio está profundamente ligada à formação da identidade religiosa de Belém. Por isso, reduzir essas devoções a uma disputa política é perder justamente aquilo que elas têm de mais forte.

Nossa Senhora Aparecida pertence à história do Brasil. Nossa Senhora de Nazaré pertence à história do Pará. E ambas pertencem, principalmente, à vida de seus devotos. É claro que pessoas religiosas também são cidadãs, votam, possuem opiniões políticas e participam da sociedade. A fé não coloca ninguém fora da vida pública. Mas existe uma diferença entre a participação política de uma pessoa religiosa e transformar um símbolo de devoção coletiva em instrumento de disputa.

No Pará, talvez isso seja ainda mais fácil de compreender. O Círio reúne pessoas de diferentes opiniões, profissões, classes sociais e visões de mundo. Na mesma multidão estão aqueles que pensam completamente diferente sobre praticamente tudo. Durante algumas horas, entretanto, existe algo que todos reconhecem: Maria, Nazaré e a memória de quem veio antes.

É a promessa feita por uma avó, uma mãe ou um pai. É a fotografia guardada há décadas. É a lembrança de quem já não está mais aqui. É a criança que acompanha os pais e, anos depois, leva os próprios filhos. Essa é uma força que nenhuma eleição consegue fabricar.

E talvez seja justamente por isso que seja preciso tratar esses símbolos com cuidado. Não porque Nossa Senhora Aparecida ou Nossa Senhora de Nazaré precisem ser protegidas de opiniões políticas, mas porque a devoção de milhões de pessoas merece ser respeitada em sua dimensão própria.

No Brasil, Aparecida. No Pará, Nazaré. Duas imagens, duas histórias e uma devoção que atravessa gerações. Com elas, definitivamente, ninguém mexe.

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