Futebol sempre teve provocações. Faz parte do espetáculo.
Quem acompanha o esporte sabe que provocações entre jogadores acontecem há décadas. Neymar já fez isso contra adversários de diferentes clubes. Outros jogadores também fazem. Uns gostam, outros consideram desrespeitoso, mas tudo isso normalmente termina quando o árbitro apita o fim da partida.
O que causa estranheza é ver uma provocação de campo atravessar as quatro linhas e se transformar em pauta da Câmara Municipal de Belém.
A proposta anunciada pela vereadora Marinor Brito para declarar Neymar persona non grata na capital paraense pode até render manchetes, vídeos nas redes sociais e aplausos de parte da torcida azulina. Mas, na prática, não melhora a saúde pública, não reduz os alagamentos, não aumenta a segurança, não resolve o trânsito, não cria vagas em creches nem ajuda a enfrentar qualquer um dos inúmeros desafios da cidade.
O título de persona non grata é apenas simbólico. Não impede Neymar de entrar em Belém, não produz qualquer consequência jurídica e dificilmente mudará o comportamento do jogador.
Ao mesmo tempo, a iniciativa tem potencial para projetar uma imagem negativa da cidade em nível nacional. Em vez de Belém aparecer pelas suas riquezas culturais, gastronômicas ou pelos preparativos para eventos internacionais, o debate passa a girar em torno de uma provocação de futebol transformada em assunto institucional.
Também é importante separar as coisas. Se Neymar foi arrogante, desrespeitoso ou apenas respondeu às provocações recebidas durante o jogo, isso faz parte da discussão esportiva. Cabe aos torcedores, aos clubes e à imprensa debaterem esse comportamento. Transformar esse episódio em prioridade legislativa parece ampliar uma rivalidade futebolística para um campo que pouco contribui para a vida da população.
A Câmara Municipal exerce um papel essencial na fiscalização do Executivo, na elaboração de leis e na discussão de políticas públicas. Quando pautas de forte apelo nas redes sociais ocupam espaço que poderia ser dedicado a problemas estruturais da cidade, é natural que surjam questionamentos sobre as prioridades do Parlamento.
Belém enfrenta desafios que vão da mobilidade urbana ao saneamento, da ocupação irregular à segurança, passando por educação, saúde e preparação para grandes eventos. São temas que impactam diariamente a vida de milhares de pessoas e que, para muitos cidadãos, merecem estar no centro do debate político.
No fim das contas, Neymar seguirá jogando futebol. O Remo continuará sua história. A provocação será esquecida em poucos dias. Já os problemas de Belém continuarão esperando por soluções muito depois que a polêmica sair das redes sociais.


