As tradicionais letras que ornamentam embarcações da Amazônia e o ofício dos abridores de letras foram oficialmente reconhecidos como patrimônio cultural imaterial do Estado do Pará. A lei foi publicada nesta quinta-feira (2) no Diário Oficial do Estado e representa um marco para a preservação de uma das mais autênticas manifestações da cultura gráfica amazônica.
Muito além da identificação das embarcações, as pinturas transformaram-se, ao longo das décadas, em uma expressão artística própria, marcada por traços ornamentados, cores vibrantes e estilos desenvolvidos por artistas autodidatas que mantêm viva uma tradição transmitida entre gerações.
Uma tradição que nasceu nos rios da Amazônia
A origem desse ofício remonta à década de 1920, quando a Capitania dos Portos tornou obrigatória a identificação pintada das embarcações que circulavam pelos rios da região.
O que inicialmente era apenas uma exigência administrativa acabou dando origem a uma linguagem visual singular. Cada abridor de letras passou a desenvolver estilos próprios, criando uma identidade estética que hoje é facilmente reconhecida nas embarcações que navegam pelos rios paraenses.
Com o passar do tempo, esse modo de pintar tornou-se um dos símbolos da cultura ribeirinha amazônica e da identidade visual do Pará.
Reconhecimento fortalece preservação
Autor da proposta, o deputado estadual Carlos Bordalo (PT) afirma que os barcos representam muito mais do que meios de transporte para as populações amazônicas.
Segundo o parlamentar, eles também servem como suporte para uma manifestação artística que traduz a identidade das comunidades ribeirinhas e preserva conhecimentos tradicionais construídos ao longo de quase um século.
Para Bordalo, o reconhecimento reforça o compromisso com a valorização da diversidade cultural paraense e incentiva as novas gerações a manterem vivo esse patrimônio.
Mais de 20 anos de pesquisa
A conquista também representa o fortalecimento de um trabalho desenvolvido há mais de duas décadas pelo Instituto Letras que Flutuam, primeira instituição brasileira dedicada exclusivamente à preservação da cultura gráfica ribeirinha.
Formalizado em 2024, o instituto surgiu a partir de pesquisas iniciadas em 2004, que já identificaram mais de 130 abridores de letras em diferentes municípios paraenses.
Além do mapeamento dos mestres, a instituição desenvolve ações voltadas à documentação desse saber tradicional, formação de novos artistas, orientação sobre direitos autorais, geração de renda e valorização da profissão.
Ao longo desse período, as letras de barcos ultrapassaram os rios amazônicos e passaram a ocupar murais urbanos, escolas, centros culturais, exposições, campanhas publicitárias e projetos de design em diversas regiões do país.
Patrimônio vivo
Apesar do crescente reconhecimento, pesquisadores destacam que os artistas responsáveis por manter viva essa tradição ainda enfrentam desafios relacionados à preservação do ofício e à criação de políticas permanentes de valorização.
Para a pesquisadora Fernanda Martins, fundadora e diretora do Instituto Letras que Flutuam, a publicação da lei representa um momento histórico para todos que atuam na preservação dessa manifestação cultural.
Segundo ela, o reconhecimento oficial é resultado de mais de duas décadas de pesquisas e do trabalho realizado junto aos abridores de letras em diferentes regiões do Pará.
Fernanda afirma que a expectativa é que a nova legislação contribua para ampliar políticas públicas capazes de fortalecer os mestres da cultura gráfica ribeirinha e garantir a continuidade desse conhecimento para as futuras gerações.
Nos últimos anos, o Instituto promoveu encontros estaduais dos abridores de letras, publicou livros, produziu documentários, realizou oficinas em escolas e levou artistas paraenses para ministrarem atividades em diversas capitais brasileiras, consolidando as letras de barcos como um dos maiores símbolos da identidade cultural do Pará.



