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De motorista de ônibus a inimigo número um de Washington: a trajetória de Nicolás Maduro

Herdeiro político de Hugo Chávez, presidente venezuelano governou por 12 anos sob crises, acusações de autoritarismo e isolamento internacional

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, foi capturado por forças dos Estados Unidos na madrugada deste sábado (3), segundo anúncio feito pelo presidente norte-americano Donald Trump. A Casa Branca informou que Maduro foi retirado do território venezuelano, mas não revelou seu paradeiro. O governo da Venezuela afirma não ter informações sobre onde está o presidente nem sua esposa, Cilia Flores.

No poder há 12 anos, Maduro exercia seu terceiro mandato, conquistado em eleições duramente questionadas por observadores internacionais. Herdeiro político de Hugo Chávez, ele se tornou o principal alvo da política externa norte-americana na América Latina e uma das figuras mais controversas do continente.

Das ruas de Caracas ao sindicalismo

Nicolás Maduro Moros nasceu em Caracas, em 1962. Após concluir o ensino médio, passou a trabalhar como motorista de ônibus no sistema do Metrô de Caracas. Foi nesse ambiente que iniciou sua trajetória política, ao fundar um sindicato dos trabalhadores do metrô, ainda no fim da década de 1970.

O envolvimento sindical aproximou Maduro do Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (MBR-200), liderado por Hugo Chávez. Em 1992, após a tentativa fracassada de golpe de Chávez e sua prisão, Maduro ganhou projeção nacional ao se tornar um dos principais militantes pela libertação do líder chavista.

Ascensão política e proximidade com Hugo Chávez

Com a eleição de Hugo Chávez em 1999, Maduro passou a ocupar cargos estratégicos. Tornou-se membro da Assembleia Nacional Constituinte, deputado federal e, em 2006, presidente da Assembleia Nacional.

Posteriormente, deixou o Legislativo para assumir o cargo de ministro das Relações Exteriores, função na qual permaneceu por cerca de seis anos. Como chanceler, construiu uma imagem de fidelidade absoluta ao chavismo e manteve relações diplomáticas ativas com países aliados, como Cuba, Rússia e China.

Em 2012, Chávez o escolheu como vice-presidente, em meio ao agravamento de seu estado de saúde. Antes de se afastar definitivamente do poder, Chávez deixou uma mensagem clara ao país: “Se algo acontecer comigo, elejam Nicolás Maduro”.

Chegada ao poder e primeiros anos

Com a morte de Hugo Chávez, em março de 2013, novas eleições foram convocadas. Maduro venceu o opositor Henrique Capriles por uma margem apertada, assumindo a Presidência em meio a forte polarização política.

Os primeiros anos de governo foram marcados por protestos de rua, repressão policial e prisões de lideranças oposicionistas, como Leopoldo López e Antonio Ledezma. A partir de 2014, a Venezuela entrou em uma crise econômica profunda, que se agravaria nos anos seguintes.

Colapso econômico e crise social

O governo Maduro enfrentou uma das piores crises econômicas da história do país. Com a queda dos preços internacionais do petróleo — principal fonte de receita da Venezuela —, o Estado perdeu capacidade de financiar políticas públicas.

A tentativa de conter o rombo fiscal por meio da impressão de dinheiro levou a uma hiperinflação histórica, que chegou a milhões por cento ao ano em 2019. O resultado foi o aumento da pobreza, escassez de alimentos, apagões, falta de água e medicamentos.

A crise provocou um êxodo em massa. Segundo o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), mais de 6 milhões de venezuelanos deixaram o país até 2023, muitos deles buscando refúgio no Brasil e em outros países da América Latina.

Autoritarismo e questionamentos democráticos

Maduro passou a ser acusado internacionalmente de autoritarismo, perseguição a opositores e enfraquecimento das instituições democráticas. Em 2017, convocou uma Assembleia Constituinte sem participação do Parlamento, controlado pela oposição.

A Constituinte assumiu poderes absolutos, substituindo o Legislativo na prática, decisão não reconhecida por diversos países. Protestos contra a medida resultaram em mortes, prisões arbitrárias e denúncias de violações de direitos humanos.

As eleições seguintes, incluindo a reeleição em 2018 e o terceiro mandato, foram marcadas por denúncias de fraude, exclusão de candidatos opositores e ausência de observadores internacionais reconhecidos.

O conflito do Essequibo

No fim de 2023, Maduro reacendeu uma antiga disputa territorial ao propor a anexação da região de Essequibo, área que corresponde a cerca de 70% do território da Guiana. A iniciativa ocorreu após a descoberta de grandes reservas de petróleo na região.

Mesmo com acordos internacionais para resolver a disputa de forma pacífica, Maduro sancionou uma lei criando a província venezuelana da Guiana Essequiba, elevando a tensão diplomática na América do Sul e gerando preocupação internacional.

Terceiro mandato e isolamento internacional

A disputa pelo terceiro mandato foi marcada por acordos frustrados com a oposição, mediação internacional, sanções dos Estados Unidos e exclusão de candidaturas opositoras relevantes, como a de María Corina Machado.

Apesar de permanecer no poder, Maduro governava um país politicamente isolado, sob sanções econômicas e com reconhecimento limitado no cenário internacional.

Alvo direto dos Estados Unidos

Nos últimos anos, o governo dos EUA passou a tratar Maduro como líder do chamado “Cartel de los Soles”, acusando-o de envolvimento com narcotráfico e classificando-o como ameaça à segurança internacional. Washington chegou a oferecer recompensa milionária por informações que levassem à sua captura.

Neste sábado (3), o presidente Donald Trump anunciou que forças americanas capturaram Maduro e o retiraram da Venezuela. O destino do presidente e de sua esposa permanece desconhecido.

A queda de Nicolás Maduro marca um capítulo histórico na política latino-americana, com repercussões ainda imprevisíveis para a Venezuela e para o equilíbrio geopolítico da região.

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