Pacaraima, município de Roraima localizado na fronteira com a Venezuela, tornou-se a principal porta de entrada de migrantes venezuelanos no Brasil. Desde 2015, mais de 1,1 milhão de pessoas cruzaram a fronteira pela cidade, segundo registros oficiais. Com cerca de 19 mil habitantes, de acordo com o Censo 2022, o município fica a aproximadamente 215 quilômetros de Boa Vista e é ligado ao restante do estado pela BR-174.
A dinâmica local voltou a ganhar atenção após novos acontecimentos na Venezuela. No sábado (3), os Estados Unidos realizaram uma ação militar no país vizinho, com registros de explosões em Caracas e nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira. O presidente venezuelano Nicolás Maduro e a esposa foram levados aos Estados Unidos. As informações repercutiram rapidamente em cidades de fronteira, como Pacaraima.
Do lado venezuelano, a cidade de Santa Elena de Uairén mantém relação histórica de circulação de pessoas e comércio com o município brasileiro. Esse fluxo se intensificou a partir da segunda metade da década passada, quando a crise política, econômica e social na Venezuela passou a provocar migração em larga escala.
Somente em 2025, mais de 96 mil venezuelanos ingressaram no Brasil por Pacaraima. Em outubro, foram contabilizadas 11 mil entradas, conforme dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra). A Prefeitura de Pacaraima informou que o município permanece com funcionamento regular do comércio e que acompanha a situação em articulação com as forças de segurança.
Migração incorporada à rotina local
Desde 2015, o aumento do número de migrantes alterou a rotina da cidade. Praças, postos de combustível e áreas comerciais passaram a concentrar pessoas recém-chegadas ao Brasil, muitas delas em busca de trabalho, alimentação e serviços de saúde. Parte dos migrantes entra a pé no país, trazendo pertences básicos e crianças.
Entre os recém-chegados está José González, de 48 anos, natural de Maturín, no leste da Venezuela. Ele entrou no Brasil poucos dias antes dos novos acontecimentos políticos. Segundo José, a saída do país não representa rejeição à Venezuela, mas uma resposta à falta de segurança e estabilidade.
Ao comentar as notícias sobre os ataques e a captura de Maduro, ele relatou sentimentos de incerteza e expectativa por uma solução política. “Quem sofre sempre é a população”, afirmou.
Momentos de tensão
Pacaraima já enfrentou períodos críticos relacionados ao fluxo migratório. Em agosto de 2018, episódios de violência entre brasileiros e venezuelanos levaram ao fechamento temporário do comércio e à redução da circulação nas ruas, colocando o município no centro do debate nacional sobre migração em áreas de fronteira.
Ainda em 2018, o governo federal criou a Operação Acolhida, coordenada pelo Exército Brasileiro, com ações de triagem, vacinação, regularização documental e interiorização de migrantes para outros estados. Desde então, Pacaraima passou a conviver com abrigos, equipes de saúde, militares e organizações humanitárias.
Apesar disso, parte dos migrantes vive fora das estruturas oficiais, alugando quartos, ocupando imóveis ou atuando no comércio formal e informal.
Fronteira e adaptação
Em 2019, o fechamento temporário da fronteira coincidiu com o envio de ajuda humanitária a partir de Boa Vista e ampliou o uso de rotas alternativas conhecidas como trochas. O período também evidenciou casos de crianças que cruzavam a fronteira para estudar em escolas brasileiras.
Nos últimos anos, Pacaraima passou por mudanças associadas ao crescimento populacional. O município apresentou a maior expansão proporcional de Roraima na última década. Um levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV), no estudo “Geografia do PIX”, apontou uma taxa de adesão de 550% ao sistema de pagamentos instantâneos, com cerca de 106 mil usuários mensais para uma população estimada em 19 mil habitantes.
Atualmente, o espanhol é ouvido com frequência nas ruas, e venezuelanos atuam em supermercados, restaurantes, oficinas, hotéis e no comércio informal.
Incerteza sobre o futuro
A migrante Elizabeth Rincón, de 39 anos, chegou a Pacaraima há menos de um mês. Ela afirma que as notícias sobre a situação na Venezuela geraram preocupação, principalmente por familiares que permaneceram no país. Segundo Elizabeth, a retirada de Maduro não traz garantias imediatas sobre o futuro político venezuelano.
Após conseguir contato com a mãe, que vive na Venezuela, ela relatou que a situação estava controlada fora das áreas diretamente afetadas. Mesmo assim, afirma que o cenário permanece indefinido para quem deixou o país.
Com informações de G1
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