Caso Master e a Teoria dos Jogos: O Dilema de Vorcaro
Por Eduardo Cunha
John Nash foi, de fato, um matemático brilhante — não por acaso, o adjetivo dá título ao filme Uma Mente Brilhante, que retrata sua trajetória, interpretado pelo bonitão Russell Crowe. A obra passeia tanto por suas contribuições acadêmicas quanto por seus dramas pessoais, especialmente a luta contra a esquizofrenia, que marcou profundamente sua vida.
Mas o que nos interessa aqui é menos Hollywood e mais a ideia que rendeu a Nash o Nobel de Economia: a Teoria dos Jogos. Em bom português, trata-se de entender como pessoas (ou instituições) tomam decisões quando sabem que o outro lado também está jogando — e tentando ganhar. A teoria busca modelar o comportamento de indivíduos ou grupos em cenários de competição ou cooperação.
A teoria nasceu na Economia, mas hoje se mete em tudo: Ciência Política, Biologia Evolutiva e até Inteligência Artificial. Em resumo: se tem gente disputando algo, tem teoria dos jogos ali — mesmo que ninguém admita.
É justamente esse tipo de raciocínio que ajuda a olhar para o caso envolvendo o Banco Master como um grande tabuleiro. De um lado, instituições como a Polícia Federal, o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. De outro, atores políticos de todos os espectros — unidos por aquilo que Brasília tem de mais forte: o instinto de sobrevivência. E, no centro disso tudo, Daniel Vorcaro.
Nesse tipo de cenário, um velho conhecido da teoria aparece: o Dilema do Prisioneiro. Dois suspeitos são presos e interrogados separadamente, sem possibilidade de comunicação. Cada um pode ficar em silêncio (cooperar) ou trair o outro (confessar). Se ambos permanecem em silêncio, recebem penas leves; se um trai e o outro se cala, o traidor é beneficiado enquanto o outro recebe a punição mais severa; se ambos traem, acabam com penas intermediárias.
No dilema, cada jogador pensa: “se o outro me trair, é melhor eu trair também”. Esse raciocínio leva ambos a escolher trair, independentemente do que o outro faça — e todos, invariavelmente, acabam perdendo.
Soa familiar?
No caso Master, os movimentos recentes lembram bastante esse roteiro. Após denúncias envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli teria reagido tentando se antecipar no jogo, enquanto Alexandre de Moraes endurece o tabuleiro com instrumentos já conhecidos. Nos bastidores, outros jogadores parecem calcular a velha saída pragmática: se necessário, sacrifica-se a peça para salvar o rei — ou, neste caso, a Corte.
É aqui que entra a principal contribuição de Nash: o Equilíbrio de Nash — a ideia de que ninguém melhora sua situação mudando de estratégia sozinho. Traduzindo: todo mundo pode até estar desconfortável, mas ninguém quer ser o primeiro a mexer e pagar o preço.
Imagine duas lojas vendendo o mesmo produto. Se uma baixa o preço, pode atrair mais clientes. Mas a outra pode fazer o mesmo. No final, ambas acabam com preços baixos.
O ponto central é que o Equilíbrio de Nash não representa o melhor resultado possível — apenas um resultado estável. É quase o avesso de uma Vitória de Pirro: uma vitória em que o custo é tão alto que acaba anulando ou superando os ganhos obtidos
E é exatamente isso que se observa — ao menos antes da corrida eleitoral ganhar tração.
Talvez isso explique o comportamento de boa parte da classe política — governo e oposição — citada, direta ou indiretamente, no caso. Com nomes que vão de Luiz Inácio Lula da Silva, cuja reunião com Gabriel Galípolo e o próprio banqueiro foi descrita como “ótima” e “muito forte”, a Jair Bolsonaro, beneficiado por doação à sua campanha em 2022 realizada por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Falar demais, nesse jogo, pode custar caro.
Aqui, o equilíbrio é quase elegante: ninguém mexe muito, ninguém acusa demais, ninguém aprofunda além do necessário. Porque, como ensina Nash, quando todos têm algo a perder, o silêncio vira estratégia — não virtude. Afinal, em Brasília, teto de vidro não é exceção: é arquitetura padrão.
No centro desse xadrez está, claro, Vorcaro. Seu dilema é quase didático: colaborar e abrir o jogo, correndo o risco de perder patrimônio e liberdade, ou apostar que, ao permanecer em silêncio, o sistema lhe será mais favorável — como já ocorreu em episódios como o perdão de multas bilionárias envolvendo Odebrecht ou a anulação de condenações do próprio Luiz Inácio Lula da Silva.
Este é o dilema de Vorcaro: trair ou cooperar?
Como ele irá proceder, nem mesmo “uma mente brilhante” parece capaz de prever — por enquanto.
E, olhando de fora, como espectadores desse jogo de estratégia, blefe e cálculo, talvez reste uma conclusão incômoda: pode ser que os únicos fora do jogo sejamos nós.



