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‘Cansados, mas a fim de roubar alguém’: delegado e diretor de polícia falam sobre lucro com extorsão no Pará, diz MP

Mensagens revelam divisão de propina, escolha de alvos e uso de inquéritos policiais como fonte de lucro, segundo investigação

Mensagens obtidas pelo Ministério Público do Pará (MP-PA) apontam que um delegado da Polícia Civil e um ex-diretor metropolitano da corporação tratavam a extorsão de investigados como fonte de lucro e discutiam abertamente a divisão de propina. Em uma das conversas interceptadas, o delegado Arthur Afonso Nobre de Araújo Sobrinho afirma estar “cansado, mas a fim de roubar alguém”.

Segundo as investigações, o grupo atuava desde 2021, transformando inquéritos policiais em oportunidades de cobrança ilegal. Suspeitos de casos com maior repercussão eram selecionados e, em troca de vantagens como o relaxamento de prisões ou condução favorável dos procedimentos, eram exigidos pagamentos em dinheiro.

Cobrança após atropelamento em Belém

Um dos episódios analisados ocorreu em janeiro de 2024, após um atropelamento em Belém. O caso ficou sob responsabilidade de Arthur Nobre, e familiares do motorista relataram ao MP a cobrança de R$ 25 mil para amenizar a situação do investigado.

A denúncia chegou ao delegado por meio de uma mensagem enviada por uma parente do motorista, que o reconheceu em reportagens. Para o MP, o caso exemplifica o modo de operação do esquema, que se aproveitava da fragilidade dos investigados diante da possibilidade de prisão ou agravamento do processo.

Envolvimento da cúpula da Polícia Civil

As apurações indicam que Arthur Nobre mantinha diálogo constante com seu superior imediato à época, o então diretor metropolitano da Polícia Civil, Carlos Daniel Fernandes de Castro. Nas mensagens, os dois comentam valores de propina e falam sobre ganhos que poderiam ter sido maiores caso permanecessem mais tempo em determinadas delegacias.

De acordo com o MP, Carlos Daniel também recebia parte dos valores e auxiliava na transferência do delegado para unidades consideradas mais “lucrativas”. Em uma das conversas, um escrivão afirma que a mudança permitiria que o grupo ficasse “bem, sem bronca”. Em outro diálogo, Arthur classifica a atuação como um “investimento a curto prazo”.

Promotor e juiz também são investigados

A investigação aponta ainda a participação de integrantes do próprio Ministério Público, em uma espécie de “justiça paralela”. Um dos alvos é o promotor Luís Márcio Teixeira Cipriano, acusado de combinar alvos com o delegado e validar acordos ilegais. Em mensagens, ele agradece repasses em dinheiro e fala em “garantir o futuro”.

No caso do atropelamento, o MP afirma que o promotor teria solicitado formalmente que Arthur conduzisse o inquérito para viabilizar a cobrança da propina. Em conversas interceptadas, delegado e promotor trocam mensagens ofensivas e associam a cobrança de dinheiro ao perfil socioeconômico dos investigados.

O juiz Jackson José Sodré Ferraz também é investigado por suspeita de receber propina para favorecer o esquema. Entre os episódios apurados está a Operação Truque de Mestre, que teve como alvos influenciadores ligados a jogos de azar.

Pagamentos e afastamentos

Uma das investigadas, a influenciadora Noelle Araújo, afirmou ter pago R$ 500 mil a um advogado para evitar a decretação de prisão preventiva. Segundo o MP, o valor teria ligação com o esquema. O advogado citado e outro profissional, filho do juiz investigado, também são alvos da apuração.

Arthur Nobre foi afastado do cargo, mas segue recebendo salário de cerca de R$ 28 mil. Ele já foi preso três vezes durante a investigação e responde atualmente em liberdade. Para o MP, o delegado exercia papel central na organização criminosa.

Carlos Daniel Castro também foi afastado; a defesa informou que analisa os autos. O promotor Luís Márcio está afastado e recebe salário de aproximadamente R$ 68 mil. A defesa dele ainda não se manifestou.

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