Belém completa 410 anos nesta segunda-feira (12) carregando marcas profundas de uma das revoluções mais intensas, populares e sangrentas da história do Brasil — e também uma das mais esquecidas fora da Região Norte. Em 1835, durante a Cabanagem, indígenas, negros, mestiços, ribeirinhos, pobres livres e pessoas escravizadas cruzaram rios e matas da Amazônia em longas jornadas até tomar o poder na capital do então Grão-Pará, em reação à exclusão política, à concentração de poder e aos abusos do governo provincial.
Na tomada de Belém, o então presidente da província, Bernardo Lobo de Sousa, foi morto. O episódio marcou o início de um conflito que se espalhou por toda a região amazônica e deixou um saldo estimado de mais de 30 mil mortos, número expressivo para a população da época.
Quase dois séculos depois, essa história voltou a ocupar o espaço público. No domingo (11), véspera do aniversário da capital, mais de mil pessoas participaram de uma aula pública sobre a Cabanagem, caminhando pelo centro histórico de Belém e passando por ruas, praças e prédios diretamente ligados ao conflito. A cidade virou sala de aula e a memória histórica, tema central do debate.
História como provocação política
A escolha da Cabanagem como tema não foi comemorativa. “É uma provocação”, resume o historiador Michel Pinho, responsável pela atividade. “A gente vive um ano eleitoral e precisa entender que política e luta social também fazem parte da história”, afirma.
Com um megafone, um banco improvisado e o patrimônio histórico no lugar do quadro-negro, Michel conduz há anos aulas públicas que unem história, cidade e memória da Amazônia. Para ele, a Cabanagem é fundamental para compreender o Brasil contemporâneo.
“Essa revolução revela a construção de uma exclusão social no entorno de Belém, no Acará, no Moju. Quando essa insatisfação chega à capital, ela explode contra o poder público. Isso não é só passado. É um processo histórico”, explica.
O historiador destaca o caráter excepcional do movimento. “Foi um dos raros momentos em que a população mais pobre, negra e indígena, homens e mulheres, chegou ao poder e controlou a maior província do Brasil. A Cabanagem foi — e continua sendo — o maior movimento social da história desse país”, afirma.
O que foi a Cabanagem
A Cabanagem teve início em 7 de janeiro de 1835, durante o período regencial do Império, marcado por instabilidade política após a abdicação de Dom Pedro I. Grupos armados cercaram o Palácio do Governo em Belém, depuseram o presidente da província e assumiram o controle da capital.
O movimento se expandiu rapidamente, alcançando vilas e rios da Amazônia, incluindo áreas que hoje pertencem aos estados do Amazonas e do Acre. Entre as principais lideranças estavam Félix Clemente Malcher, Eduardo Angelim, os irmãos Francisco e Antônio Vinagre e o jornalista e clérigo Batista Campos, uma das vozes políticas mais influentes da época.
Diferente da imagem simplificada presente em muitos livros didáticos, a Cabanagem não foi um movimento homogêneo. Reuniu indígenas, negros, mestiços, ribeirinhos, pobres livres, pessoas escravizadas e mulheres, além de setores da elite local insatisfeitos com a centralização do poder no Rio de Janeiro.
O conflito teve impacto devastador. A mortandade foi tão elevada que a região levou décadas para se recompor demograficamente, alterando profundamente a estrutura social da Amazônia.
Desejo de participação política
Para a historiadora Magda Ricci, a Cabanagem deve ser entendida como uma revolução social, e não apenas como uma rebelião regional. Segundo ela, o centro do conflito era o desejo de participação política de grupos historicamente excluídos do poder.
Os cabanos se autodenominavam “patriotas”, mas esse patriotismo estava ligado ao território, à vida cotidiana e ao direito de decidir sobre os rumos locais — não à ideia abstrata de nação defendida pelo Império. Pesquisas da historiadora mostram que indígenas reivindicavam cargos públicos, como o de vereador, e buscavam integrar a administração municipal. Diante das negativas, o conflito se radicalizou.
Trata-se, segundo Ricci, de uma luta concreta por reconhecimento político e participação efetiva no poder local, o que explica as alianças entre grupos sociais diversos e o caráter amplo e profundamente conflituoso da revolução.
Por que o Brasil “esqueceu” a Cabanagem
Apesar da escala, da violência e da extensão territorial, a Cabanagem permanece quase invisível no imaginário histórico nacional. Para Michel Pinho, esse apagamento não é acidental.
“Os livros didáticos são sudestinos. Você encontra várias páginas sobre revoltas pequenas, enquanto a Cabanagem, que foi uma das maiores do país, aparece de forma marginal”, critica. Para ele, essa ausência reforça a exclusão histórica do Norte da narrativa nacional.
A invisibilidade também se reflete na cultura. “Por que não há filmes, séries ou minisséries sobre a Cabanagem? Quando a gente pergunta isso, está dizendo: prestem atenção na gente”, afirma.
Ao levar centenas de pessoas às ruas na véspera do aniversário de Belém, o historiador diz que a aula pública é também um gesto político. “Meus alunos não estão sentados, eles estão andando. Eu não tenho um quadro, eu tenho um prédio”, resume.
“No dia em que Belém celebra 410 anos, a Cabanagem reaparece não como lembrança distante, mas como interrogação aberta sobre participação, poder e memória. Quem decide? Quem fica de fora? E quais revoluções o Brasil escolheu celebrar — e quais preferiu esquecer?”, provoca Pinho.



