Após ataques e fake news, integrantes do Cordão da Bicharada relatam abalo emocional
Brincantes afirmam que passaram dias acompanhando distorções e sofreram emocionalmente; desinformação gerou onda de xenofobia e foi usada por influenciadores da extrema direita
Os integrantes do Cordão da Bicharada, tradicional manifestação cultural da Vila de Juaba, em Cametá, viveram dias de forte desgaste emocional após a onda de ataques e distorções que se espalharam nas redes sociais sobre a apresentação do grupo na COP30, em Belém. A repercussão negativa começou depois que o portal Metrópoles publicou uma matéria descrevendo de forma equivocada os brincantes como “atores vestidos de animais rastejando”, ignorando a natureza performática e ancestral da manifestação.
O músico e produtor Júnior Gonçalves, filho do mestre Zenóbio, relatou à reportagem o impacto sentido pelo grupo — especialmente pelos adultos responsáveis pelas crianças que integravam o cordão:
“Pra gente, foi pesado demais. Graças a Deus as crianças não estavam entendendo direito, mas nós e os pais, sim. Ficamos abalados, acompanhando novas distorções a toda hora. Papai ficou muito triste. Tínhamos outras apresentações, mas decidimos voltar antes para Cametá. O clima estava pesado. Senti que usaram a nossa imagem com sentido político, para agredir partidos.”
Segundo Júnior, o grupo passou horas acompanhando novas postagens e manipulações do vídeo, que rapidamente se espalharam entre perfis que já vinham criticando a COP30 e a presença do governo federal no evento. No Google Trends, termos como “Cametá” e “Vila de Juaba” registraram forte aumento de buscas ao longo da polêmica.
A cobertura inicial do Metrópoles não mencionou que a apresentação fazia parte de um cordão tradicional do carnaval paraense, tampouco citou a história do grupo. Em vez disso, o enquadramento superficial acabou reforçando interpretações pejorativas, levando parte do público a tratar a performance como motivo de ridicularização.
Especialistas em cultura popular apontam que o episódio escancarou um problema recorrente: a xenofobia contra expressões culturais amazônicas, frequentemente tratadas como exotismo, bizarrice ou estranhamento quando analisadas a partir de referências externas.
A coluna que associou os brincantes ao gesto de “rastejar”, segundo analistas, ignorou a linguagem corporal típica das performances de cordões e traduziu um gesto cênico como humilhação — interpretação que abriu caminho para uma enxurrada de ataques.
Nas redes sociais, influenciadores da direita e da extrema direita amplificaram as distorções. Entre os nomes que utilizaram o vídeo para atacar o evento e o governo Lula estão:
- Kim Kataguiri (União Brasil–SP), que ironizou dizendo que eram “gente fantasiada se arrastando de quatro”;
- Firmino Cortada, com 2,1 milhões de seguidores, que afirmou que a apresentação merecia “nota dó”;
- Nikolas Ferreira (PL–MG), que republicou críticas baseadas em um vídeo do influenciador Danuzio Neto, posteriormente deletado.
O uso político do episódio gerou, entre os integrantes, sentimento de injustiça e frustração. Para muitos, a reação nas redes sociais não se limitou ao julgamento de uma apresentação, mas expôs o preconceito histórico e o desconhecimento profundo sobre manifestações tradicionais do interior do Pará.
Apesar do desgaste emocional, o grupo recebeu apoio institucional importante: o governador Helder Barbalho (MDB) convidou o Cordão da Bicharada para realizar uma nova apresentação no encerramento da COP30, em gesto de reconhecimento e reparação simbólica.



