A polêmica envolvendo uma empresária paraense que recebeu críticas e ameaças de boicote por utilizar o vermelho na identidade visual de seu restaurante em Santa Catarina merece uma reflexão que vai além da disputa política. A cor foi associada ao Partido dos Trabalhadores por pessoas que aparentemente ignoraram uma explicação bastante simples: a empresária utiliza uma referência à bandeira e à identidade cultural do Pará. Mas, se o vermelho passou a ser motivo de desconfiança política, talvez seja interessante olhar também para os símbolos do próprio estado onde a polêmica aconteceu.
A bandeira de Santa Catarina é composta por três faixas horizontais, duas vermelhas e uma branca, atravessadas por um losango verde-claro que abriga o brasão estadual. No centro, uma águia de asas abertas segura uma chave e uma âncora. Ao redor estão elementos que representam a história e a atividade econômica catarinense: um ramo de café, um feixe de trigo, uma estrela branca e o barrete frígio, aquele gorro vermelho associado historicamente aos ideais republicanos. O conjunto não é uma decoração aleatória. Cada elemento carrega uma referência à formação histórica, política, econômica e territorial do estado.
O losango verde-claro representa a vegetação. A águia simboliza as forças produtoras, enquanto a chave remete à posição estratégica de Santa Catarina no território nacional e a âncora faz referência à sua tradição marítima. O trigo representa a agricultura da terra, e o café, a produção agrícola do litoral. Já o barrete frígio, também vermelho, é um símbolo clássico das forças republicanas e dos ideais de liberdade. No brasão, a data de 17 de novembro de 1889 recorda a implantação da República em Santa Catarina. São referências que ajudam a compreender a identidade que o estado escolheu representar em sua própria bandeira.
E aqui cabe uma pergunta: os catarinenses que se incomodaram tanto com o vermelho utilizado por uma empresária paraense conhecem o significado dos elementos da bandeira de seu próprio estado? Sabem que há um barrete frígio vermelho no brasão, associado justamente aos ideais republicanos? Será que também vão interpretar esse símbolo como uma homenagem ao PT? Ou a associação entre uma cor e determinado partido só vale quando aparece na identidade visual de alguém que veio do Pará?
É importante observar que a legislação catarinense estabelece a composição e as cores da bandeira, mas não atribui um significado partidário às faixas vermelhas. A explicação oficial para o losango verde, por exemplo, é a representação da vegetação. Já o barrete frígio tem uma simbologia republicana histórica, muito anterior à existência do PT. Portanto, transformar o vermelho em propriedade de uma legenda política não é apenas uma interpretação equivocada, mas também um desconhecimento da própria história dos símbolos que essas pessoas dizem defender.
No caso da empresária paraense, a questão é ainda mais simples: ela levou para Santa Catarina uma referência à sua origem. Não existe obrigação de abandonar a própria identidade cultural ao atravessar a divisa de um estado. O problema se torna mais grave quando as críticas à marca vêm acompanhadas de mensagens que sugerem que paraenses deveriam voltar para o Pará. Nesse momento, a discussão deixa de ser sobre preferência política e passa a expor uma rejeição à presença de pessoas de outras regiões.
O Brasil não é formado por estados isolados, cada um limitado à sua própria cultura. Milhares de brasileiros deixam suas cidades e estados em busca de trabalho, oportunidades e melhores condições de vida. A convivência exige respeito às diferenças, inclusive àquelas que se manifestam nas cores, nos sotaques, na culinária e nos símbolos regionais. Um paraense não precisa esconder sua origem para empreender em Santa Catarina, assim como um catarinense não precisa deixar de ser quem é quando escolhe viver no Pará.
No fim das contas, se o vermelho da bandeira catarinense não representa uma declaração de apoio partidário, por que o vermelho da identidade visual de uma empresária paraense deveria representar? Talvez seja mais produtivo conhecer o significado das próprias bandeiras antes de procurar adversários políticos nas cores dos outros.



