Um mestiço amazônico, descendente de indígenas e africanos, governando uma cidade portuária na costa sul da China, no auge do poder da dinastia Qing. Parece roteiro de filme de aventura, mas é um capítulo real da história do Grão-Pará, quase completamente esquecido até pelos próprios paraenses.
O protagonista é António de Albuquerque Coelho, e a trajetória dele atravessa três continentes, um naufrágio de reputação, um golpe de estado no sudeste asiático e um mandato à frente de Macau justamente durante o reinado do imperador Kangxi, um dos mais longos e poderosos da história chinesa.
Um filho bastardo nascido em Cametá
Albuquerque Coelho nasceu por volta de 1682 em Santa Cruz de Cametá, então parte do Estado do Maranhão e Grão-Pará. Era filho bastardo de António de Albuquerque Coelho de Carvalho, fidalgo português que fez carreira longa e itinerante pelo império colonial: passou por cargos de comando no Maranhão e no Grão-Pará, foi governador do Rio de Janeiro, primeiro governador da capitania de São Paulo e Minas do Ouro durante a Guerra dos Emboabas, e terminou a vida como governador de Angola, onde morreu em 1725. A mãe, Ângela de Barros, era pernambucana, filha de um mulato com uma indígena, neta por parte de mãe de um homem branco com uma escrava angolana. É dessa ascendência dupla, indígena e africana, cruzada com a nobreza portuguesa do pai, que vem a caracterização de Albuquerque Coelho como um mestiço amazônico atuando no topo da administração colonial portuguesa no Oriente, tema central da pesquisa da historiadora Iris Carvalho Nascimento, da UFPA.
Albuquerque Coelho passou apenas parte da infância na Amazônia. Ainda menino foi mandado para Portugal, onde se tornou fidalgo cavaleiro da Casa Real, e de lá partiu, em março de 1700, com apenas 18 anos, embarcado numa nau rumo ao Estado da Índia. Seguiu carreira militar como tenente e depois capitão de infantaria. Em 1708 embarcou na fragata de guerra Nossa Senhora das Neves, que partiu para Macau e chegou lá em agosto daquele ano em estado lastimável: sem mastros, sem leme, quase destruída. A embarcação ficou parada na cidade por cerca de dois anos para ser reparada, e foi esse acidente de percurso que fixou Albuquerque Coelho em Macau pela primeira vez.
Anos turbulentos em Macau
A pequena comunidade portuguesa de Macau da época, algumas milhares de pessoas, vivia sob tensão permanente entre o poder civil, a Igreja e os interesses comerciais. Albuquerque Coelho se envolveu logo nas disputas mais quentes do período: como oficial, participou ativamente do confronto entre a cidade e o cardeal Charles-Thomas Maillard de Tournon, legado apostólico enviado pelo papa para arbitrar a chamada Controvérsia dos Ritos Chineses, um conflito teológico sobre até que ponto os costumes chineses podiam ser tolerados pelos convertidos ao catolicismo. Albuquerque Coelho chegou a ser excomungado pelo próprio Tournon, e mesmo assim continuou tomando parte em episódios de força, incluindo o embarque forçado de dois padres estrangeiros contrários à posição da cidade, em 1713. Nesse mesmo ano já integrava o Senado de Macau, sinal de que, apesar da origem mestiça e bastarda, tinha conquistado peso político dentro da colônia.
A vida pessoal também rendeu escândalo. Albuquerque Coelho disputou a mão de Maria de Moura Vasconcelos, ainda criança na época, com o tenente Dom Henrique de Noronha. A rivalidade dividiu a cidade em dois partidos, com autoridades, padres jesuítas e oficiais tomando lados. Foi nesse confronto, segundo os registros macaenses, que Albuquerque Coelho perdeu um braço.
A viagem que quase não aconteceu
Em maio de 1717, já de volta a Goa, Albuquerque Coelho foi nomeado governador de Macau pelo arcebispo primaz de Goa, que respondia interinamente pelo cargo de vice-rei. Deveria embarcar imediatamente rumo à China, mas o único navio disponível no porto tinha como comandante um desafeto pessoal seu, Francisco Xavier Doutel. Usando a desculpa de uma tempestade iminente, Doutel zarpou de Goa horas antes do horário previsto para o embarque do novo governador, deixando-o em terra.
Muitos moradores de Macau já contestavam a nomeação de Albuquerque Coelho, incluindo o próprio bispo da cidade, que temia as consequências políticas de colocar no comando alguém com histórico de tantos conflitos internos. Abandonado em Goa e ciente dessa oposição, Albuquerque Coelho decidiu seguir mesmo assim, indo por terra até a costa oriental da Índia e de lá buscando qualquer embarcação disponível rumo à China.
O trajeto, que deveria durar poucos meses, se estendeu por um ano inteiro. A comitiva passou por Madras, atravessou a península Malaia e, ao aportar em Johor, no extremo sul da península, ficou obrigada a passar o inverno na região. Foi lá que Albuquerque Coelho, à frente de um punhado de europeus, acabou envolvido no golpe de estado do aventureiro sumatrano Raja Kechil, que derrubou o sultanato local então em disputa. O grupo português passou cerca de seis meses em Johor antes de retomar viagem rumo à China, cruzando ainda as costas da Indochina, e só chegou a Macau em maio de 1718.
Todo esse percurso foi registrado em detalhe pelo capitão João Tavares de Velez Guerreiro, que acompanhou Albuquerque Coelho como chefe de gabinete durante a viagem. O relato foi publicado ainda em 1718, em Macau, sob o título “Jornada, que Antonio de Albuquerque Coelho, Governador e Capitão General da Cidade do Nome de Deos de Macao na China, fez de Goa até chegar à dita cidade no anno de 1718”. A obra teve reedições em Lisboa em 1732 e 1905, e é hoje uma das únicas fontes seculares entre os primeiros livros já impressos em Macau, a maioria de conteúdo religioso.
Governador na China de Kangxi
Albuquerque Coelho assumiu formalmente o governo de Macau em 30 de maio de 1718, ano em que o imperador Kangxi, no trono havia mais de cinco décadas, comandava um dos impérios mais extensos e ricos do mundo. Macau, sob domínio português havia mais de um século, dependia inteiramente da boa vontade das autoridades chinesas para sobreviver como entreposto comercial, e o controle português sobre a cidade era, na prática, muito mais formal do que real.
Um episódio simboliza bem essa dependência: em março de 1719, o Senado de Macau enviou um agradecimento formal ao imperador Kangxi pela isenção da cidade em relação a um edito imperial que proibia a navegação para os mares do sul, decisão que poderia ter estrangulado o comércio da colônia. O gesto rendeu à cidade um presente imperial e mostra como a diplomacia com a corte chinesa, e não apenas a autoridade portuguesa, era o que garantia a sobrevivência de Macau.
O mandato de Albuquerque Coelho foi relativamente tranquilo para os padrões da cidade, mas também curto: terminou em 9 de setembro de 1719, pouco mais de um ano depois de ele finalmente ter chegado ao posto que quase não conseguiu assumir.
De Macau a Timor, e o fim da trajetória
A carreira de Albuquerque Coelho no Oriente não terminou em Macau. Em 1722 foi nomeado governador colonial do Timor português, cargo que ocupou até 1725. O período foi marcado por conflitos: segundo registros da época, ele chegou a ser cercado pelos topasses, grupo de descendência luso-asiática que dominava boa parte da ilha e disputava poder com a administração colonial portuguesa. A pesquisa de Iris Nascimento aponta ainda uma passagem dele por Pate, no litoral da atual Quênia, outro posto remoto do circuito colonial português no Índico.
Albuquerque Coelho morreu em 1745, aos 62 ou 63 anos, em Madre de Deus, na Índia portuguesa, depois de mais de quatro décadas fora da terra onde nasceu.
Por que essa história importa
A trajetória de Albuquerque Coelho interessa hoje a pesquisadores como Iris Nascimento, da UFPA, justamente por revelar como um homem de origem mestiça amazônica, filho bastardo, neto de escrava africana e de indígena, conseguiu ocupar um dos postos mais altos da administração portuguesa no Extremo Oriente, numa época em que a mestiçagem costumava ser motivo de exclusão, não de ascensão. O historiador britânico Charles Boxer, que dedicou um estudo inteiro à passagem de Albuquerque Coelho por Macau, o descreve como um dos personagens mais interessantes já ligados à cidade, ao lado de nomes como o poeta Camões.
É uma história que conecta Cametá, no Pará, a Goa, Johor e Macau, num único percurso de vida. E que segue praticamente desconhecida fora dos círculos acadêmicos, mesmo entre os paraenses que vivem a poucos quilômetros do lugar onde tudo começou.
Fontes
- Iris Carvalho Nascimento, “Do Estado do Maranhão e Grão-Pará ao leste asiático português: a trajetória política do mestiço amazônico Antônio de Albuquerque Coelho (séculos XVII e XVIII)”, VIII Seminário Internacional História e Historiografia, UFC, 2024.
- Iris Carvalho Nascimento, “Da Índia à China: análise sobre o mestiço amazônico Antônio de Albuquerque Coelho na obra de João Tavares de Vellez Guerreiro, de 1718”, 33º Simpósio Nacional de História, ANPUH, 2025.
- Charles R. Boxer, “A Fidalgo in the Far East, 1708–1726: Antonio de Albuquerque Coelho in Macao”, The Far Eastern Quarterly / Journal of Asian Studies, vol. 5, n. 4, 1946.
- Paulo Miguel Martins, “Percorrendo o Oriente: A Vida de António de Albuquerque Coelho (1682–1745)”, Livros Horizonte, 1998.
- João Tavares de Velez Guerreiro, “Jornada, que Antonio de Albuquerque Coelho, Governador e Capitão General da Cidade do Nome de Deos de Macao na China, fez de Goa até chegar à dita cidade no anno de 1718”, Macau, 1718.
- Memórias de Macau / Instituto Cultural de Macau, verbete “António de Albuquerque Coelho (1682-?)”.
- Arlindo Correia, biografia de António de Albuquerque Coelho, arlindo-correia.com.
- Wikipédia (PT e EN), verbetes “António de Albuquerque Coelho” e “Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho”.



