ESPORTENOTÍCIANOTÍCIAS

Brasileiros atribuem queda da seleção brasileira ao avanço do neopentecostalismo

O Brasil acaba de completar sua pior sequência sem conquistar uma Copa do Mundo. Pela primeira vez, uma geração inteira cresceu sem ver a Seleção campeã. E, diante desse declínio, muita gente começou a procurar explicações fora das quatro linhas.

A eliminação do Brasil para a Noruega marcou mais do que o fim de uma Copa do Mundo. Ela consolidou a pior sequência da história da Seleção Brasileira em Mundiais. Seis eliminações consecutivas para seleções europeias, duas décadas sem levantar a taça e uma sensação crescente de que o futebol brasileiro perdeu algo que antes parecia natural.

Como acontece em toda grande derrota nacional, surgem explicações para todos os lados. Há quem culpe a CBF, o calendário, os empresários, a formação de atletas, a Europa ou a falta de técnicos brasileiros. Mas, nos últimos dias, uma hipótese curiosa começou a circular nas redes sociais: a de que o declínio da Seleção acompanha a ascensão do neopentecostalismo entre os jogadores.

À primeira vista, a ideia parece exagerada. E talvez seja. Mas ela revela algo interessante sobre as transformações culturais do Brasil.

A Seleção de 2026 chamou atenção por um detalhe pouco comentado: entre os principais jogadores, apenas Marquinhos, segundo diversos relatos da imprensa, se identifica publicamente como católico. A maioria dos demais atletas frequenta igrejas evangélicas, especialmente de orientação neopentecostal, ou manifesta publicamente esse tipo de religiosidade.

Evidentemente, isso não explica derrotas. Ninguém perde uma Copa por causa da religião que pratica. Mas talvez a questão não seja a religião em si.

Talvez seja a visão de mundo que acompanha uma parte significativa da chamada Teologia da Prosperidade. Ela nasce da ideia de que prosperidade material é sinal de bênção divina. O sucesso deixa de ser apenas consequência de talento ou trabalho e passa a ser interpretado também como confirmação espiritual. Vencer significa estar no caminho certo. Enriquecer é quase uma prova de mérito moral.

Esse pensamento conversa profundamente com um tipo de brasileiro que se tornou muito comum nas últimas duas décadas. É o homem entre 25 e 40 anos, morador de uma cidade média ou da periferia de uma grande capital. Muitas vezes foi o primeiro da família a ascender socialmente. Cresceu em uma casa onde cinco pessoas viviam com dois ou três salários mínimos e hoje ganha oito, dez ou quinze.

Na prática, ele multiplicou a renda da família várias vezes. Naturalmente, passa a acreditar que não existe limite para essa escalada. Seu imaginário gira em torno dos símbolos do sucesso: carros, relógios, perfumes, viagens, roupas de marca, condomínios, investimentos. Mais do que possuir esses bens, gosta de falar sobre eles. Seu horizonte é sempre o próximo degrau.

Nesse universo, riqueza não representa apenas conforto. Representa validação. E essa lógica, de certa forma, também invadiu o futebol. O jogador brasileiro de hoje tornou-se uma marca muito antes de se consolidar como ídolo esportivo. Constrói patrimônio, fecha contratos publicitários, administra empresas, investe em negócios e desenvolve uma identidade voltada ao empreendedorismo.

Nada disso é errado.

O problema surge quando o desempenho esportivo deixa de ocupar o centro da carreira. Durante esta Copa do Mundo, por exemplo, veio à tona a informação de que Neymar já havia gravado diversas campanhas publicitárias para o caso de o Brasil conquistar o hexacampeonato. Segundo reportagens, havia uma estratégia de marketing pronta para apresentá-lo como o rosto da conquista.

Enquanto isso, dentro de campo, a Seleção sequer passou das oitavas de final. Depois da eliminação, chamou atenção a declaração de Endrick. Em vez de justificar o erro, ele lamentou o gol perdido, agradeceu a Deus pela oportunidade e afirmou que trabalhará durante quatro anos para voltar melhor. Independentemente da crença religiosa, a fala transmite uma postura diferente. Há menos celebração da própria imagem e mais reconhecimento da responsabilidade esportiva.

Talvez seja justamente isso que muitos torcedores sintam falta. Durante décadas, o futebol brasileiro foi marcado por jogadores profundamente religiosos. Pelé, Kaká e tantos outros jamais esconderam sua fé. A diferença talvez estivesse no centro da narrativa.

O protagonista era o futebol. Hoje, muitas vezes, a impressão é inversa. A marca pessoal parece maior que a camisa. O patrimônio parece mais importante que o legado. O marketing supera o desempenho.

Talvez seja injusto atribuir tudo isso ao neopentecostalismo. Seria simplificar um fenômeno muito mais complexo.

A crise da Seleção envolve formação de atletas, gestão, calendário, modelo de clubes, influência do mercado europeu, desgaste físico e inúmeros outros fatores.

Mas também é legítimo perguntar se o Brasil mudou culturalmente. Se o país passou a admirar mais o vencedor financeiro do que o vencedor esportivo. Se a ideia de prosperidade individual substituiu, aos poucos, o espírito coletivo que sempre caracterizou o futebol brasileiro. Talvez a pior derrota desta Copa não tenha sido para a Noruega.

Talvez tenha sido perceber que a camisa amarela já não ocupa, para muitos, o lugar mais importante da carreira. E quando isso acontece, nenhuma tática consegue resolver.

Etiquetas

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Fechar