Um raro flagrante de um jaguarundi — também chamado de gato-mourisco — chamou atenção de pesquisadores e ambientalistas na Amazônia paraense. O felino ameaçado de extinção foi registrado pela primeira vez na Estação Ecológica (Esec) Grão-Pará, localizada na fronteira do Pará com a Guiana, durante um monitoramento especial realizado entre novembro de 2025 e fevereiro deste ano.
O animal possui corpo alongado, cabeça pequena, patas curtas e uma longa cauda, características que ajudam a diferenciá-lo de outros felinos silvestres brasileiros. Apesar de ocorrer em todos os biomas do país, o jaguarundi possui baixa densidade populacional e costuma aparecer raramente em registros fotográficos, o que torna o flagrante considerado importante para pesquisadores.
A espécie está classificada como vulnerável à extinção pelo Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (Salve), do ICMBio.
Monitoramento em área estratégica da Amazônia
O registro foi feito dentro do Programa Grande Tumucumaque, iniciativa conduzida pelo Imazon e pelo Iepé em parceria com organizações indígenas, Funai e Ideflor-Bio.
O projeto prevê um monitoramento de longo prazo da fauna e flora em duas grandes unidades de conservação da região: a Estação Ecológica Grão-Pará e a Reserva Biológica Maicuru.
A área monitorada integra o chamado Escudo das Guianas, região de cerca de 10 milhões de hectares de floresta amazônica considerada uma das mais preservadas do planeta, abrangendo territórios próximos à Guiana Francesa, Guiana e Suriname.
Segundo a pesquisadora do Imazon e bióloga do projeto, Jarine Reis, o acompanhamento contínuo da biodiversidade é fundamental para entender os impactos das mudanças climáticas sobre os ecossistemas amazônicos.
“É fundamental monitorar a biodiversidade nesse local para entender como essas espécies estão respondendo aos impactos das mudanças climáticas que afetam o ambiente ao longo do tempo. Com o monitoramento de longo prazo, vamos ter um panorama mais amplo da biodiversidade local, o que pode colaborar com a proteção territorial”, explicou.
Câmeras registraram dezenas de espécies
Além do jaguarundi, as câmeras instaladas na floresta registraram cerca de 44 espécies de animais, principalmente mamíferos de médio e grande porte.
Entre os animais identificados estão anta, tamanduá, tatu-bola, onça-parda, onça-pintada e diversas aves cinegéticas.
Até o momento, o balanço parcial da pesquisa contabilizou 94 registros de mamíferos e 50 espécies de aves monitoradas.
O trabalho conta ainda com participação direta de indígenas da região. Nove monitores indígenas receberam treinamento técnico para atuar no acompanhamento das espécies e na coleta de dados ambientais.
A monitora Erlane Tiriyó, da aldeia Boca do Marapi, no Parque Indígena do Tumucumaque, destacou a importância do projeto para as comunidades locais.
“Esse programa pode colaborar com o monitoramento e proteção do nosso território. Para mim foi muito importante participar dessa atividade para aprender mais sobre o monitoramento, conhecer mais as espécies de animais, os nomes e compartilhar com a comunidade, com as crianças essas informações”, afirmou.
Tecnologia e preservação
O monitoramento será ampliado ainda este ano. A partir de agosto, os pesquisadores pretendem abrir uma nova trilha científica e instalar 15 novas câmeras automáticas, além de 15 gravadores bioacústicos capazes de captar sons de aves, insetos e outros animais da floresta.
Segundo os organizadores, a integração entre ciência e participação indígena fortalece a proteção territorial e amplia o conhecimento sobre espécies raras da Amazônia.
“Estamos fazendo o monitoramento participativo com os indígenas, o que é muito importante para a integração do território. Para os povos indígenas, não existem limites territoriais. Então, ao conhecerem o território vizinho, eles podem contribuir ainda mais para a proteção da região”, completou Jarine Reis.



