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Conheça o arubé, “mostarda indígena” do Pará feita da mandioca que corre risco de desaparecer

Molho tradicional à base de tucupi resgata saber ancestral dos povos indígenas do Pará e ganha espaço na alta gastronomia

Pouco conhecido fora da Amazônia, o arubé é um molho tradicional indígena feito a partir do tucupi — o sumo extraído da mandioca brava — e que, ao longo do tempo, foi sendo deixado de lado por muitas comunidades. Com sabor marcante e levemente picante, semelhante ao da mostarda, ele já foi amplamente utilizado por povos originários em diferentes regiões do Brasil, tanto na alimentação quanto na conservação de carnes de caça.

Descrito por estudiosos como Luís da Câmara Cascudo e Nunes Pereira, o arubé aparece em registros históricos como um dos primeiros molhos do território brasileiro. Sua produção envolve a concentração do tucupi, que passa por um processo de cozimento até atingir uma textura mais densa e um sabor intenso.

Hoje, o arubé é mantido vivo principalmente por comunidades indígenas, como as da Terra Indígena Arara da Volta Grande, em Altamira. Por lá, o molho voltou a ser produzido após iniciativas de resgate cultural que reconectaram os moradores às técnicas tradicionais. O reencontro com o preparo trouxe emoção especialmente aos mais velhos, que lembravam do sabor, mas já não dominavam mais o modo de fazer.

Um dos responsáveis por levar o arubé para além das aldeias é o chef Ofir Oliveira, fundador da Associação Sabor Selvagem, em Belém. A partir de pesquisas, ele recriou o molho e passou a utilizá-lo em pratos servidos no Brasil e no exterior, ampliando o reconhecimento desse patrimônio gastronômico. Segundo ele, o arubé agrega sabor tanto a carnes vermelhas quanto a aves e frutos do mar.

Além da relevância cultural, o molho também apresenta um aspecto ambiental importante. O tucupi, matéria-prima do arubé, é frequentemente descartado durante a produção de farinha de mandioca. Esse descarte pode causar impactos ambientais devido à presença de compostos tóxicos. Ao reaproveitar o líquido na alimentação, o arubé surge como alternativa sustentável, reduzindo resíduos e valorizando integralmente o alimento.

Apesar disso, a produção ainda é limitada e, em muitos lugares, o conhecimento sobre o preparo segue em risco de desaparecer. Hoje, o arubé é encontrado principalmente de forma artesanal, em feiras e pequenos estabelecimentos, além de seu uso em contextos culturais, como rituais e celebrações indígenas.

A preservação do arubé vai além da culinária: representa a manutenção de saberes ancestrais, da identidade cultural dos povos indígenas e de uma relação mais equilibrada com a natureza — elementos que seguem ameaçados diante das transformações sociais e ambientais na Amazônia, especialmente em regiões impactadas por grandes empreendimentos, como a usina de Belo Monte.

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